Sobre o uso do Prolegômenos
Em P168, P169, Kant aponta que os Prolegômenos devem ser usados como uma “sinopse geral” da sua obra, “como plano e guia para a investigação, não como um próprio trabalho (P169)” e ainda, que algumas seções da “Doutrina dos Elementos” em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781) tome-se como base para o exame, o que o Prolegômenos diz com respeito a essas seções
Resumo da Apresentação do Tradutor
Em “Prolegômenos”, Kant distingue a sua posição dos demais idealismos de Berkeley e Descartes, com o que vai chamar de “idealismo transcendental (ou idealismo crítico)“. De acordo com o tradutor, duas razões centrais levaram Kant a escrever essa obra
- Corrigir graves mal entendidos acerca da natureza de sua investigação
- Deixar claros os objetivos e as etapas de exposição da crítica, assim como seus elementos essenciais
Nesse sentido, mapeia as três grandes divisões da “Crítica”, sendo ela Estética, Analítica e Dialética Transcendental em três grandes questões
- Como é possível a matemática pura?
- Como é possível a ciência pura da natureza?
- Como é possível a metafísica como disposição natural da razão, e pode ela igualmente vir a constituir-se em uma ciência?
Diferente do método sintético que usa na “Crítica”, em “Prolegômenos”, Kant utiliza o método analítico.
assumindo como existente as ciências da matemática e da física puras, procedem regressivamente, à maneira analítica, em busca dos fundamentos que possibilitam a existência dessas ciências
Além disso, “Prolegômenos” contém duas discussões que não estão na “Crítica”:
- A distinção entre juízos de percepção e juízos de experiência
- O problema das contrapartes incongruentes
Para o tradutor, o “Prolegômenos”
possui um valor próprio enquanto exposição independente de sua filosofia crítica em seus traços essenciais
O que ajuda tanto o iniciante, quanto o pesquisador experiente em Kant
Prefácio
Mediante a estagnação da metafísica, Kant afirma que “é necessário alcançar definitivamente uma certeza sobre a natureza dessa suposta ciência”. Sendo assim, a pretensão de seu trabalho é estabelecer as bases para a possibilidade de uma metafísica, portanto, estabelecer algumas exigências para a existência da mesma enquanto ciência.
O ponto de partida em Hume e os limites de seus adversários (P25)
Embora Kant reconheça as limitações no ceticismo de Hume, aponta que o mesmo parte de um importante conceito da metafísica, que é o da “conexão entre causa e efeito”. E esse conceito de causa diz que
algo possa estar de tal modo constituído que, uma vez posto, alguma outra coisa também tivesse de estar posta necessariamente
O que Hume fez foi provar de modo irrefutável que
é inteiramente impossível para a razão pensar essa conjunção a priori por meio de conceitos, pois ela contém necessidade, e não se pode ver de nenhum modo como, do fato de que algo exista, alguma outra coisa deva também necessariamente existir, e como portanto, se poderia introduzir a priori o conceito dessa conexão
Portanto, para Hume, a causalidade é um erro onde a imaginação fecundada pela experiência tomou erroneamente uma “necessidade subjetiva” (hábito) por uma “necessidade objetiva” provinda do conhecimento. Sendo assim, Hume inferiu que
“a razão não tem nenhum poder de pensar essas conexões, nem sequer apenas de maneira global, pois seus conceitos seriam então meras ficções, e todas as suas supostas cognições a priori nada mais que experiências ordinárias falsamente rotuladas, o que equivale a dizer que não existe nenhuma metafísica, nem poderia existir P26
Kant aponta as limitações nos oponentes de Hume, que não puderem identificar a questão central no problema levantado por Hume, que era a conclusão sobre a origem do conceito de causa, aponta inclusive que o apelo ao senso comum antes da hora, quando ainda existe a possibilidade de ciência e conhecimento tornou possível essa falha, a dúvida de Hume consistia em saber se o conceito de causa.
é pensado a priori pela razão, tendo desse modo uma verdade interna independente de toda a experiência e, com isso, também uma utilidade bem mais ampla, que não estaria limitada apenas aos objetos da experiência
Kant parte para investigar se a objeção de Hume não se deixaria representar de forma geral, e chega a conslusão que “o conceito da conexão de causa e efeito esta longe de ser o único pelo qual o entendimento pensa a priori conexões entre as coisas”, e ainda, “que a metafísica consiste inteiramente nesses conceitos”. A partir de um único princípio, partiu a dedução dos conceitos e se tornou seguro que esses conceitos “não derivam da experiência, como cuidava Hume, mas originam-se do puro entendimento” (p28). Essa era a dedução que estabelecia a possibilidade de uma metafísica.
Uma vez que Kant resolveu esse problema de Hume, para toda a faculdade da razão pura pode então
“determinar, de maneira completa e segundo princípios universais, toda a extensão da razão pura, tanto em suas fronteiras como em seu conteúdo, que era o que a metafísica necessitava para construir seu sistema de acordo com um plano seguro” p29
Essa determinação é a que se propõe a “Crítica da Razão Pura”, apontando a necessidade de uma crítica ser inteiramente completa, e ainda que é essa obra que “exibe a faculdade da razão em toda sua extensão e fronteiras”. A “Crítica da Razão Pura” é a fundamentação a qual os “Prolegômenos” se referem apenas como exercícios preliminares.
Kant afirma que a Crítica exigia uma “exatidão escolástica” que a tornava prolixa e obscura. Para os Prolegômenos, ele propõe um plano onde expõe o conhecimento “segundo o método analítico, já que o próprio trabalho a Crítica “tinha de ser inteiramente composto à maneira sintética”. Isso significa que os Prolegômenos partem de fatos dados (como a existência da matemática e da física pura) para descobrir as condições de sua possibilidade, tornando a leitura mais acessível.
Prolegômenos. Retrospectiva do que é peculiar a toda cognição metafísica
TL;DR
Nessa retrospectiva, Kant buscará sistematizar a cognição metafísica através de suas peculiaridades, então:
- conclui que as cognições metafísicas são a priori, portanto provém do puro entendimento e da pura razão
- categoriza os juízos em analíticos (explicativos) e sintéticos (ampliativos) e também através de suas relações com o princípio da contradição
- classifica os juízos sintéticos em três tipos com relação as cognições que podem produzir, sendo eles os juízos
- de experiência: a posteriori
- matemáticos: a priori (é nesse momento que Kant apontará a necessidade da intuição nos juízos matemáticos)
- propriamente metafísicos: a priori (produzidas tanto a partir da intuição como a partir de conceitos, diferente da matemática que produz apenas a partir da intuição)
- faz uma crítica aos filósofos dogmáticos (pois buscaram as fontes dos juízos metafísicos na própria metafísica) e aponta as limitações em Locke com relação aos conceitos sobre juízos analíticos e juízos sintéticos a priori que ali podiam já serem encontrados
§1 - Das fontes da metafísica
- Não podem ser empíricas (definido pelo conceito)
- seus princípios portanto não podem ser tirados da experiência
- é necessário que seja uma cognição metafísica e não física, portanto, além da experiência
- seus princípios portanto não podem ser tirados da experiência
- nem a experiência exterior (física) nem a experiência interior (psicológica empírica) podem ser a sua base
- é portanto cognição a priori
- que provém do puro entendimento e da pura razão
- não há nada que a diferencie da matemática pura quanto a sua origem
Nota sobre a distinção entre metafísica e matemática
A distinção entre a matemática e a metafísica esta no método, pois enquanto uma constrói conceitos na intuição, a outra é discursiva (trabalha apenas com conceitos). Isso é crucial para entender porque a metafísica tem dificuldades que a matemática não tem
Sintetizando
As fontes da metafísica não podem ser empíricas. Uma vez que é necessário uma cognição metafísica, e não física, seus princípios não podem ser, portanto, tirados de nenhuma experiência tanto exterior (domínio da física) quanto interior (domínio da psicologia). Portanto, é cognição a priori, que provém do puro entendimento e da pura razão, e que não há nada que a diferencie da cognição da matemática pura.
§2 - Da única espécie de cognição que pode ser chamada metafísica
a) Da diferença entre juízos sintéticos e analíticos em geral (P34)
Kant classifica os juízos com relação ao seu conteúdo em:
- juízos analíticos: simplesmente explicativos e nada acrescentam ao conteúdo da cognição
- exemplo: todos os corpos são extensos
- juízos sintéticos: juízos ampliativos que aumentam a cognição dada
- exemplo: alguns corpos são pesados
Juízos analíticos não dizem, no predicado, nada que já não estivesse efetivamente pensado no conceito do sujeito, ainda que não de forma tão clara e com igual consciência (P34)
b) O princípio comum de todos os juízos analíticos é o princípio de contradição (P34)
Para Kant, os juízos analíticos são cognições a priori devido a sua própria natureza, pois:
-
o predicado de um juízo analítico afirmativo já esta de antemão pensado no conceito do sujeito (ex: todo corpo é extenso)
- portanto aquele não pode ser negado deste sem contradição
-
o mesmo acontece com um juízo analítico negativo, que é necessariamente negado do sujeito (ex: nenhum corpo é inextenso)
- também de acordo com o principio da contradição
Todas as proposições analíticas são juízos a priori, ainda que seus conceitos sejam empíricos.
Portanto, para Kant, a marca de um juízo analítico é que sua negação resulta em um absurdo lógico.
c) Juízos sintéticos exigem um princípio distinto do princípio de contradição (P35)
Kant distingue os juízos sintéticos com relação a sua origem em:
- a posteriori: origem empírica
- a priori: do puro entendimento e razão
Kant afirma que
“jamais podem originar-se do princípio fundamental da análise, isto é, do princípio de contradição, mas exigem, além disso, um princípio inteiramente diferente, se bem que, seja qual for esse princípio, tenham sempre de ser derivados em conformidade com o princípio de contradição” (P35)
Info
A frase afirma que os juízos sintéticos (que ampliam nosso conhecimento) não podem ser deduzidos por mera análise lógica de conceitos (pois isso seria tautologia), exigindo assim uma base externa à lógica (como a intuição ou a experiência). No entanto, qualquer conhecimento novo que essa base externa forneça deve respeitar a lógica; ele não pode ser ilógico ou contraditório, sob pena de ser aniquilado como conhecimento válido
Classificação dos juízos sintéticos
Juízos de Experiência Kant diz que é um disparate fundar um juízo analítico na experiência, portanto, sua definição é que ele é sempre sintético a posteriori.
Juízos Matemáticos Seguem-se do princípio da contradição por conta de sua natureza apodítica, entretanto, suas proposições fundamentais não podem ser conhecidas a partir desse mesmo princípio, pois
uma proposição sintética pode, é certo, ser apreendida a partir do princípio de contradição, mas apenas quando se pressupõe outra proposição sintética da qual ela decorre, nunca, porém, por si mesma (P36)
Proposições matemáticas genuínas são sempre juízos a priori e não empíricos pois trazem consigo necessidade, que é algo que não pode ser obtido da experiência.
Kant demonstra sobre como a proposição aritmética é sempre sintética, entretanto valendo-se do auxílio da intuição. Kant conclui que o predicado se liga aos conceitos não imediatamente, mas por meio de uma intuição
O que é essencial e distintivo da pura cognição matemática em relação a todas as demais cognições a priori é que ela deve proceder inteiramente, não a partir de conceitos, mas sempre apenas pela construção de conceitos (P37), portanto, como deve ir além do conceito em direção ao que está contido na intuição, suas proposições não podem ser obtidas analiticamente, apenas de maneira sintética.
Kant aponta que esse erro que Hume cometeu achando que as proposições matemáticas poderiam ser conhecidas através do princípio da contradição, “foi exatamente como se houvesse dito que a matemática pura contém apenas proposições analíticas, e a metafísica, por sua vez, proposições sintéticas a priori” o que o impediu de ter “ampliado sua questão sobre a origem de nossos juízos sintéticos para muito além de seu conceito metafísico de causalidade, estendendo-o até a possibilidade da matemática a priori, pois teria de tomá-la igualmente como sintética”.
Juízos propriamente metafísicos
Kant afirma que existem muitos juízos analíticos que pertencem a metafísica e são como um meio para os juízos propriamente metafísicas, estes sim, o objetivo da ciência. A metafísica tem algo de especial e peculiar na produção de suas cognições a priori. Tomemos como exemplo a seguinte proposição sintética e caracteristicamente metafísica:
“tudo o que, nas coisas, é substância, persiste”
Dentro as proposições relacionadas a metafísica, temos proposições analíticas pertencentes a metafísica e proposições sintéticas das quais a própria metafísica se compõe. Portanto, pode-se afirmar que a metafísica possui proposições sintéticas a priori, que uma vez que requerem muita analise dos seus conceitos, muitos juízos analíticos são produzidos como fruto dessas decomposições do conceito.
“A análise de um puro conceito do entendimento (tais como os contidos na metafísica) não procede de maneira diversa da decomposição de quaisquer outros conceitos… o juízo analítico não é caracteristicamente metafísico, ainda que o conceito o seja” (P39)
é a produção da cognição a priori, tanto a partir da intuição quanto de conceitos, e, por fim, também de proposições sintéticas a priori, especificamente na cognição filosófica, que faz o conteúdo essencial da metafísica (P40)
§3 - Observação sobre a classificação geral dos juízos em analíticos e sintéticos
Nessa sessão, aponta sobre a falha dos filósofos dogmáticos, que buscaram as fontes dos juízos metafísicos na própria metafísica, mas não fora dela (como exemplo, Wolff e Baumgarten). Por outro lado, afirma que os conceitos sobre juízos analíticos e juízos sintéticos a priori poderia ser encontrado em Locke, embora de maneira muito limitada.
A questão geral dos Prolegômenos. É afinal possível a metafísica ?
§4
Através de um exame da metafísica em seus tempos atuais, Kant argumenta novamente sobre o fato de que na metafísica embora possam existir muitas proposições apoditicamente certas, essas são, entretanto, todas analíticas (ao contrário do que se busca, que são as proposições sintéticas a priori).
Aponta a necessidade de superar o dogmatismo e o ceticismo e buscar responder a questão se “É afinal possível a metafísica”, não com as respostas já existentes do ceticismo e dogmatismo, mas sim a partir do conceito ainda problemático de tal ciência, empreitada que Kant tentou fazer em “Crítica da Razão Pura” de maneira sintética.
No Prolegômenos, de maneira analítica, parte-se já da existência de uma cognição pura sintética dada a priori, a saber, a matemática pura e a ciência pura da natureza. Essa é a garantia de uma cognição sintética a priori incontestada.
Prolegômenos. Questão geral. Como é possível uma cognição pela razão pura?
TL;DR
A partir dessa questão, Kant aponta que responder a essa questão é condição fundamental para que as cognições metafísicas sejam válidas, caso contrário “a metafísica sequer seria possível enquanto ciência”. Além disso:
- aponta os méritos e as limitações do ceticismo de Hume
- justifica porque a matemática pura e a ciência pura comportam cognições teóricas (cognições a partir da pura razão)
- divide a “questão transcendental principal” (o que da origem e subjaz as cognições a priori) em quatro outras questões:
- Como é possível a matemática pura?
- Como é possível a ciência pura da natureza?
- Como é possível a metafísica em geral?
- Como é possível a metafísica como ciência?
§5
Kant usará o método analítico para investigar o fundamento das proposições sintéticas a priori, respondendo a questão central: “Como são possíveis proposições sintéticas a priori?”, e uma vez que essa cognição seja possível, será também possível “determinar, a partir dos princípios de sua possibilidade, as condições de seu uso, sua extensão e suas fronteiras” (P47)
Para Kant, sem que essa questão fosse respondida, a metafísica sequer seria possível enquanto ciência, mas apenas como uma “arte de saudáveis persuasões”. Reafirma que aos metafísicos cabe a tarefa de se apropriar dessa filosofia especulativa para responder tal pergunta.
depende inteiramente da solução desse problema que a metafísica se ponha de pé ou tombe por terra, e, portanto, sua própria existência (P48)
Ainda que se criem cognições a priori não apenas analisando os conceitos dados mas alegando novas conexões que não estão baseadas no princípio da contradição de maneira que seja possível o entendimento independente da experiência, para Kant, sem a resposta de tal pergunta, tais cognições não poderiam ser válidas.
David Hume levantou a dúvida sobre a existência dessas cognições colocando em dúvida o princípio da causalidade (mais detalhes na P49) afirmando que tais cognições não seria possíveis sem a experiência, e que portanto essas cognições resultavam de se tomar a necessidade subjetiva por objetiva. Entretanto, Hume não expôs a questão em sua generalidade (para todos os casos), que é o objetivo dessa empreitada.
Isso aqui ainda não esta tão claro
Para Kant a filosofia transcendental precede necessariamente a qualquer metafísica e é ela própria a solução completa da questão, embora apresentada em ordem sistemática e com todos os detalhes, portanto, o que recebe esse nome é na verdade “uma parta da metafísica”. A possibilidade da metafísica precisa ser estabelecida por uma “ciência que deve, pois precedê-la”. Portanto, se faz necessário “uma ciência absolutamente desprovida da assistência de todas as demais”.
Para Kant, a matemática pura e a ciência pura da natureza são as duas ciências que comportam a cognição teórica (cognições a partir da pura razão), pois
só estas nos podem apresentar os objetos na intuição e com isso, caso contenham uma cognição a priori, mostrar-nos sua verdade ou correspondência com o objeto in concreto, isto é, sua realidade, da qual se pode, então, proceder pela via analítica até o fundamento da sua possibilidade (P51)
Portanto, Kant dividirá a “questão transcendental principal” (o que da origem e subjaz as cognições a priori) em quatro outras questões:
- Como é possível a matemática pura?
- Como é possível a ciência pura da natureza?
- Como é possível a metafísica em geral?
- Como é possível a metafísica como ciência?
A solução desses problemas consistem no conteúdo essencial da “Crítica”, entretanto, possui algo de distinto (pelo próprio método analítico), que é o poder de
buscar na própria razão as fontes das ciências dadas, para, desse modo, por meio de seu próprio ato, investigar e mensurar seu poder de conhecer algo a priori
A partir da origem comum a esses cognições, poderemos esclarecer melhor a sua própria natureza
Primeira parte da questão transcendental principal. Como é possível a matemática pura?
(TL;DR)
O cerne da questão esta na diferença entre os aparecimentos e as coisas em si, e sobre espaço e tempo enquanto intuições fundamentais de todas as cognições matemáticas, e ainda:
- justifica o porque buscará na matemática algum fundamento a priori através de suas particularidades e do fundamento das cognições matemáticas
- distingue os juízos da matemática dos juízos da filosofia
- distingue entre a intuição pura e a intuição empírica
- diferencia entre intuição e conceito
- define a intuição como uma forma de sensibilidade
- estabelece espaço e tempo como as intuições fundamentais de todas as cognições e juízos matemáticos, exemplificando através da geometria (noção de espaço), aritmética (noção de tempo) e física pura (noção de tempo)
- distingue os “aparecimentos” do “ser em si”
- Síntese da solução do problema “Como é possível a matemática pura?”
- Analise do procedimento dos geômetras
- Como acontece o rebaixamento do espaço e do tempo a meras formas de nossa intuição sensorial
- Argumentação sobre a realidade objetiva indubitável das proposições da geometria
- Explora o que separa o Idealismo Transcendental (ou Crítico/Formal) de Kant do Idealismo Material
- Argumentação contra a objeção de que sua doutrina transformaria todo o mundo sensível em pura ilusão
§6
Kant justifica que a matemática é um vasto e bem comprovado domínio de cognições, e afirma que essas cognições matemáticas trazem consigo
uma certeza inteiramente apodítica, ou seja, necessidade absoluta, e não tem, portanto, seu fundamento na experiência, é um puro produto da razão e além disso é inteiramente sintético
Portanto, questiona se essa faculdade possui algum fundamento a priori que poderia “revelar-se por esses seus efeitos” ao rastrear-se seus primeiros inícios.
§7
Particularidade e fundamento das cognições matemáticas Para Kant, as cognições matemáticas devem ter como seu fundamento:
alguma intuição pura na qual possa representar todos seus conceitos in concreto e ainda assim a priori, ou, como se diz, construí-los
Diferença dos juízos da matemática e dos juízos da filosofia Para Kant, os juízos da matemática são sempre intuitivos, ao passo que a filosofia
deve satisfazer-se com juízos discursivos a partir de simples conceitos, e, embora possa ilustrar suas doutrinas apodíticas pela intuição, jamais pode derivá-las dela (P53)
Portanto, descobrir essa intuição pura e sua possibilidade é um pré requisito para “explicar daí como são possíveis proposições sintéticas a priori na matemática pura, e também como essa própria ciência é possível”
Distinções entre a intuição pura e a intuição empírica
Ao fazer a distinção entre a intuição empírica e a intuição pura, Kant nota que através da intuição empírica, um conceito (juízo) que fazemos de um objeto da intuição é “ampliado sinteticamente na experiência por novos predicados que essa própria intuição oferece”. Portanto, os juízos que fazemos através da intuição empírica são certos a posteriori, pois contém apenas o que se encontra na “intuição empírica contingente”
Significado de "Contingente" de acordo com Dicionário de Fiosofia
EPIST. E META. “O que não é de necessidade lógica”
Em contrapartida, os juízos que fazemos pela intuição pura devem ser certos a priori e apodítico (§6 sobre as certezas apodíticas) , pois deve conter necessariamente o que se encontra na intuição pura, e sendo a priori, esta ligada ao conceito antes de toda a experiência ou percepção particular.
§8
Ao refletir sobre a como seria possível intuir alguma coisa a priori, Kant investiga a distinção entre uma intuição e um conceito.
Para Kant, a Intuição é uma representação, e portanto, depende imediatamente da presença de um objeto ao passo que sendo possível intuir a priori essa intuição deveria ter lugar sem que um objeto ao qual ela pudesse se referir estivesse presente.
Para Kant, um Conceito é de tal natureza que claramente pode ser formado a priori, pois pode conter “apenas o pensamento de um objeto geral, sem estarmos em relação direta com o objeto”, como por exemplo, os conceitos de “causa” e “quantidade”, dentre outros. Entretanto, Kant nota que mesmos os conceitos precisam de um determinado uso in concreto (aplicação a alguma intuição pela qual um objeto desses conceitos nos seja dado) para que possam ser providos de significado e sentido
Fruto dessa investigação, Kant chega a outra dúvida:
como pode a intuição do objeto vir antes do próprio objeto (P55)
§9
Kant concede a possibilidade de que as intuições empíricas sejam capazes de representar as coisas “tal como são em si mesmas” para justificar que ainda assim, tal intuição não seria a priori, pois dependeria que o objeto lhe fosse apresentado para que fosse possível conceber algum fundamento da relação entre ele e a representação.
Info
- Para Kant a priori significa “antes que o objeto me fosse apresentado” (ver grifo em P55)
A partir dessa conclusão, Kant afirma que existe uma única condição para que a sua “intuição preceda a presença real do objeto e tenha lugar como cognição a priori”:
se ela não contém nada mais que a forma da sensibilidade, que em mim, enquanto sujeito, precede todas as impressões reais com que sou afetado por objetos
Kant chega através dessa conclusão refletindo que se pode saber a priori é que os objetos do sentido só podem ser intuídos de acordo com essa forma de sensibilidade. Portanto, proposições referente a essa forma da intuição sensorial só serão possíveis e válidas para os objetos do sentido, portanto a conclusão a que Kant chega é:
intuições que são possíveis a priori não podem jamais dizer a respeito a outras coisas além dos objetos de nossos sentidos (P55)
§10
Uma vez que é possível intuir coisas a priori apenas por meio da forma da intuição sensorial, podemos conhecer os objetos tal como eles podem aparecer para nós (para nossos sentidos), e não como podem ser em si mesmos.
Para Kant, espaço e tempo são as intuições que fundamentam todas as cognições e juízos matemáticos (apodíticos e necessários).
Qual é a diferença entre cognição e juízo para Kant?
A cognição refere-se a todo ato de conhecer um objeto determinado, exigindo a união de intuição (conteúdo) e conceito. O juízo, por sua vez, é a ação lógica do entendimento que conecta essas representações. Na matemática, os juízos geram cognição porque os conceitos são conectados a intuições puras (espaço e tempo).
Matemática vs Matemática Pura, qual a distinção nas suas intuições.
Diferente da filosofia, que trabalha discursivamente com conceitos, a matemática pura procede pela construção de conceitos. Isso significa que ela deve exibir seus objetos a priori na intuição pura (e não empírica). A frase de Kant indica que, sem o fundamento do Espaço e do Tempo como intuições puras a priori, a matemática não teria onde ‘desenhar’ suas verdades necessárias; ela ficaria presa a meras definições lógicas sem conseguir ampliar nosso conhecimento (juízos sintéticos)
Como a matemática não procede analiticamente (por decomposição de conceitos), mas apenas sinteticamente, não pode dar um único passo enquanto lhe faltar a intuição pura, pois o material para os juízos sintéticos a priori só pode ser dado por meio dela.
Alguns exemplos:
- a geometria: toma como fundamento a intuição pura do espaço
- a aritmética: forma seus conceitos numéricos por adição sucessiva das unidades no tempo
- a mecânica pura: só pode formar seus conceitos de movimento por meio da representação de tempo
Kant conclui que essas representações (espaço e tempo) são intuições pois se retirarmos da intuição empírica dos corpos e suas alterações (movimento) tudo o que é empírico (que pertence a sensação), restam ainda tempo e espaço, portanto, essas são intuições puras nas quais as intuições empíricas se fundam a priori, sendo essas intuições puras a priori, são formas da sensibilidade e procedem a toda intuição empírica (percepção de objetos reais). Ou seja, os objetos podem ser conhecidos a priori, entretanto, apenas como aparecem para nós.
§11
Kant conclui que o problema dessa sessão (“Como é possível a matemática pura?”) esta solucionado e essa é síntese de Kant sobre a solução:
A matemática pura, enquanto cognição sintética a priori, só é possível porque não se refere a nada mais que meros objetos do sentido cuja intuição empírica está a priori fundada em uma intuição pura (do espaço e do tempo), e pode fundar-se desse modo porque não é senão a mera forma da sensibilidade que precede o aparecimento real de objetos, na medida em que ela é o que, em primeiro lugar, o torna possível.
Ao refletir sobre a faculdade de intuir a priori, Kant nota que essa não diz respeito à matéria do aparecimento (aquilo que nele é sensação e portanto constitui o empírico), mas apenas à sua forma, espaço e tempo.
Essas são determinações que pertencem não as coisas em si mesmas, mas na relação destas com a sensibilidade. Se o espaço e o tempo fossem propriedades das coisas em si, nós teríamos que esperar o objeto ser dado (experiência) para conhecer suas propriedades, portanto, se tomarmos o espaço e o tempo como condições formais da nossa sensibilidade e os objetos como aparecimentos, a intuição pura (forma do aparecimento) pode ser representada a partir de nós mesmos (ou seja, a priori).
§12
Kant afirma que a matemática pura jamais poderia ser compreendida (apenas admitida) sem a dedução transcendental dos conceitos de espaço e tempo e sem a noção de que “tudo que pode ser dado a nossos sentidos (aos sentidos externos no espaço e ao sentido interno no tempo) é intuído por nós apenas da maneira como nos aparece, não como é em si mesmo”
Para titulo de elucidação e confirmação, Kant analisa o procedimento “costumeiro e inevitavelmente necessário” dos geômetras através de três exemplos, que mostram:
- uma proposição sintética apoiada na intuição imediata (prova da igualdade das figuras dadas)
- proposição que não podem ser demonstradas a partir de conceitos, mas apoiando-se na intuição pura a priori (a possibilidade de apenas três linhas poderem se interceptar em um ponto formando um angulo reto)
- proposição que pressupõe uma representação de espaço e tempo (sobre uma linha traçada ao infinito)
§13
Kant busca apresentar o “rebaixamento do espaço e do tempo a meras formas de nossa intuição sensorial” através de um paradoxo, para provar que não é possível tomar como inteligível a diferença entre coisas similares e iguais, mas incongruentes, mediante nenhum conceito, mas apenas pela relação com a nossa intuição.
Se duas coisas são exatamente as mesmas em todas as partes que se pode conhecer de cada uma em si própria (em todas as determinações relativas a grandeza e qualidade), deve seguir-se que uma pode ser colocada no lugar da outra em todos os casos e sob todos os aspectos, sem que essa mudança produza a mínima diferença reconhecível. (P58,P59)
Ao analisar as figuras geométricas esféricas, como por exemplo, dois triângulos esféricos, embora sejam completamente iguais quando descritos de forma isolada e completa, existe uma diferença intrínseca entre os dois que “só se revela por meio da relação exterior no espaço”. Para mostrar mais casos, Kant usa como exemplo a nossa imagem no espelho, embora não exista nenhuma diferença intrínsecas, existe uma diferença interna que os sentidos são capazes de nos mostrar (pois sabemos que por exemplo, a luva da mão direita não cabe na esquerda).
Portanto, esses objetos não são representações das coisas como são em si mesmas, mas sim aparecimentos que são possíveis devido a “relação entre certas coisas, em si mesmas desconhecidas, e algo mais, a saber, nossa sensibilidade”. A parte só é possível através do todo, e mesmo que isso nunca ocorra com as coisas em si mesmas, enquanto objetos do mero entendimento, mas pode ocorrer com os aparecimentos.
o espaço é a forma da intuição externa dessa sensibilidade, e a determinação interna de qualquer espaço só é possível com pela determinação de sua relação externa com o espaço como um todo do qual ele é parte… (P59)
Observação 1
Aqui Kant busca argumentar a cerca da realidade objetiva indubitável das proposições da geometria.Uma vez que todas as proposições da geometria valem necessariamente para o espaço e “o espaço nada mais é que a forma de todos os aparecimentos externos, e apenas sob essa forma os objetos dos sentidos nos podem ser dados”, Kant afirma que:
A sensibilidade, cuja forma está na base da geometria, é aquilo em que repousa a possibilidade de aparecimentos externos (P60)
A partir da dúvida levantada por alguns filósofos matemáticos a cerca da validade objetiva e da aplicabilidade a natureza das proposições geométricas, Kant demonstra que as proposições do geômetra não são extraídas de conceitos fictícios, mas sim do fundamento subjetivo de todos os aparecimentos externos, a saber, da própria sensibilidade. Todos os objetos no espaço são simples aparecimentos (representações de nossa intuição sensorial) e não as coisas em si mesmas, portanto “é esse espaço no pensamento que torna possível o próprio espaço físico, isto é, a extensão da matéria”.
Observação 2
Para Kant, o entendimento não intui nada, ele apenas reflete e portanto os corpos são “representações da sensibilidade”:
“todos os corpos, juntamente com o espaço em que se encontram, não devem ser tomados como nada senão meras representações em nós, e não existem em parte alguma exceto apenas em nossos pensamentos” (P62)
A partir dessa reflexão se questiona se sua doutrina pode ser chamada de idealista, e o idealismo Kant define da seguinte maneira:
O idealismo consiste na asserção de que não há nada além de seres pensantes; as outras coisas que acreditamos perceber na intuição seriam apenas representações nos seres pensantes, às quais de fato não corresponderia nenhum objeto situado fora deles (P63)
Kant argumenta que essas ideias ja eram aceitas muito antes do tempo de Locke, e mais ainda depois disso, e busca distinguir a sua doutrina do idealismo argumentando que:
- diferentemente dos idealistas, para Kant existem coisas além de seres pensantes, coisas das quais conhecemos apenas seus “aparecimentos”
- as qualidades primarias dos corpos (extensão, lugar, espaço em geral, e etc) também não são propriedades ligadas ao objeto em si, mas também são aparecimentos (modificações do sentido da visão)
- além disso, considera que não só essas, como “todas as propriedades que compõem a intuição de um corpo pertencem apenas a seu aparecimento”, sendo assim, a existência da coisa que aparece não fica cancelada (como no idealismo), apenas se mostra que pelos sentidos não poderemos conhecer como ela é em si mesma
Isso é o que separa o Idealismo Transcendental (ou Crítico/Formal) de Kant do Idealismo Material (Berkeley).
Kant chega a conclusão de que as suas asserções, para que não contivessem nenhum idealismo, deveriam não só dizer que “a representação do espaço está em plena conformidade com a relação que nossa sensibilidade mantém com os objetos”, mas também que “ela seria completamente semelhante ao objeto”, uma asserção que não é possível em sua opinião dar nenhum sentido.
Observação 3
Kant aprofunda a sua doutrina da idealidade do tempo e do espaço a partir de uma objeção de que ela transformaria todo o mundo sensível em pura ilusão, tal objeção é levantada mediante uma noção errada, onde se tomava a sensibilidade “simplesmente como um modo confuso de representação” das coisas em si. Para Kant, a cognição sensorial apenas representa a maneira como como as coisas afetam os nossos sentidos, e não como são em si, e portanto, a sensibilidade consiste não em uma “diferença lógica de claridade e obscuridade” mas sim, na “diferença genética da origem da própria cognição”.
Enquanto o aparecimento depende dos sentidos, o juízo depende do entendimento, a questão que se coloca é “se há ou não verdade na determinação do objeto”. Para Kant, a diferença entre verdade e sonho não se da no caráter das representações, mas sim
pela conexão delas segundo as regras que determinam a combinação das representações no conceito de um objeto e em que medida podem manter-se juntar em uma experiência ou não (P64)
Kant afirma que um juízo falso pode facilmente surgir se esse modo subjetivo de representação (apresentação) seja tomado como objetivo (coisa em si), apenas o entendimento pode pronunciar um juízo objetivo (possível de ser falso) a partir do aparecimento, portanto, esses erros resultam do “uso de representações sensoriais no entendimento e não de sua origem”.
Para Kant, relacionar as representações do sentido juntamente com a sua forma a experiência possível evita o erro, pois ainda que essas representações sejam aparecimentos podem “coalescer corretamente na experiência segundo regras da verdade”. Nesse sentido são reafirmadas a validade das proposições da geometria, ainda que se considerasse o espaço como algo inerente as coisas em si, mas mantendo se o limite da experiência possível.
Se espaço e tempo são tomados além da experiência possível (como qualidades inerentes às coisas em si) um grave erro surge amparado por uma ilusão que é gerada ao se tomar uma condição da intuição totalmente relativa ao sujeito (subjetiva) como algo universalmente válido (objetivo) não se restringindo as condições da experiência.
Kant afirma que a sua doutrina da idealidade do espaço e do tempo, longe de converter todo o mundo sensível em mera ilusão, é antes:
- o único meio de assegurar a aplicação das cognições matemáticas a objetos reais uma vez que os objetos do mundo sensível são tomados como aparecimentos e não como coisas das quais não corresponderiam nenhum objeto.
- o único meio de evitar a ilusão transcendental da qual a metafísica sempre foi vitima, pois os aparecimentos, quando tomados como coisas em si mesmas, produziu todas as ocorrência da antinomia da razão
o aparecimento gera verdade quando usado na experiência, mas, tão logo avança além da fronteira desta e se torna transcendente, nada produz senão pura ilusão (P66)
Kant busca obter um afastamento da sua teoria (que ele mesmo denominou de “idealismo transcendental”) ao “idealismo empírico de Descartes” e ao “idealismo místico e visionário” de Berkeley, afirmando que seu idealismo não diz respeito a existência das coisas, mas sim a representação sensorial das coisas, a qual pertencem sobretudo espaço e tempo, que como todos os aparecimento, não são coisas, e tão pouco determinações pertencentes as coisas em si, mas meros modos de representação.
Significado da palavra "Transcendental" para Kant
“nunca significa uma relação de nossa cognição com coisas, mas apenas com nossa faculdade de cognição” (P67)
Kant prefere que sua teoria seja chamada de “idealismo crítico”, e reafirma que para ele o erro não esta em “converter as coisas reais (não aparecimentos) em representações”, mas sim, “converter representações em coisas”
Segunda parte da questão transcendental principal. Como é possível a ciência pura da natureza?
(TL;DR)
- através da experiência é possível conhecer o que existe e como existe, sendo impossível conhecer a natureza em si (modo da existência)
- a existência de coisas que não são inteiramente puras e independentes de fonte de experiência impede que a “ciência universal da natureza” que precede a física seja chamada de ciência inteiramente pura
- A natureza como a soma de todos os objetos da experiência (Materialiter)
- Não existe uma cognição das leis sob os quais os objetos estão sujeitos em si, mas sim, a cognição das condições necessárias para que uma experiência de objetos seja possível
- A necessária conformidade é o elemento formal da natureza
- Divisão dos juízos empíricos em juízos de percepção e juízos de experiência. Os juízos de experiência (objetivos) exigem conceitos puros do entendimento ao contrário dos juízos de percepção (subjetivos)
- Quando um conceito do entendimento determina a conexão de representações dadas por um objeto como universalmente válidas, o juízo é objetivo
- A intuição quando determinada pelos puros conceitos do entendimento deixa de ser um juízo de percepção e torna-se um juízo de experiência e nisso consistem os juízos sintéticos
- determina-se a maneira geral pela qual ela pode servir para julgar
- A tábua dos juízos em geral e os momentos do entendimento
- O juízo sintético é determinado como necessário pelo juízo de experiência através da adição dos puros conceitos do entendimento
- uma unidade sintética de intuições em uma dada função lógica dos juízos
- o conceito que representa a intuição como determinada em si mesma com respeito a uma forma de juízo mais do que outra
- a isso referem-se questões não sobre a gênese da experiência, mas sim a seu conteúdo
- A função dos sentidos é intuir e a do entendimento é pensar
- Os juízos de experiência sendo como regras a priori e necessárias, são portanto princípios a priori da experiência possível, portanto, leis universais da natureza que tornam possível uma ciência pura da natureza
- explicação de sua sistematização, requerida para a “forma de uma ciência”
- Como o conceito de grandeza subsume diretamente os aparecimento e indiretamente as sensações através do primeiro e segundo dos princípios fisiológicos
- mathesis intensorum
- Demonstrar que a relação dos aparecimentos com seus princípios a priori não é matemática, mas sim dinâmica
- aparecimentos subsumidos ao conceito de substância, eventos subsumidos ao conceito de causalidade, existência simultânea subsumido ao conceito de comunidade / reciprocidade
- explicar como pertencem as cognições de concordância e conexão aos juízos de experiência
- Apresenta o maior mérito de sua tábua ([[#§26#O fundamento da prova|o fundamento da prova]])
- Demonstração da [[#§26#A aplicação da matemática à natureza é possível e determinada|possibilidade aplicação da matemática à natureza, no que respeita à intuição sensorial]]
- A experiencia [[#§26#O modo de prova dos princípios (Analogias da experiência)|não é uma composição meramente empírica de percepções]]
- Material de apoio aos três últimos tópicos
- Como Kant irá arrancar pela raiz a dúvida humeana
- Como a cognição de coisas pela experiência esta determinada em relação aos princípios da possibilidade de experiência
- Como colocar a prova o conceito de causa problemático de Hume
- Apresentação da completa solução para o problema de Hume limitando o uso das leis universais da natureza apenas a experiência
- As falhas e os limites dos pensadores dogmáticos, daqueles que apenas fazem o uso do bom senso e dos naturalistas da razão pura
- A erro dos filósofos antigos em suas interpretações de phenomena e noumena
- Características dos conceitos puros do entendimento que podem levar a uma tentação de seu uso transcendente (uso que ultrapassa toda experiência possível)
- Apresentação de duas importantes investigações feitas em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781) para um “problema possível de solução impossível”
- Os sentidos fornecem o [[#§34#1ª Investigação|esquema para o uso dos conceitos puros]] do entendimento
- [[#§34#2ª Investigação|Nada que ultrapasse o campo da experiência]] pode ser pensado por meio dos conceitos e princípios puros do entendimento
- Também faz uma distinção entre Mundo Inteligível vs Mundo Intelectual
- Como o apreço dos jovens pensadores pela metafísica esta relacionado a férteis ilusões irrefutáveis
- A apresentação da questão Como é possível a própria natureza como fronteira e conclusão da filosofia transcedental, e suas duas questões
- [[#§36 - Como é possível a própria natureza#1ª questão (Estética Transcendental)|Estética Transcendental]], que é tratada em [[#Primeira parte da questão transcendental principal. Como é possível a matemática pura?]
- [[#§36 - Como é possível a própria natureza#2ª questão (Lógica Transcendental)|Lógica Transcendental]], na própria solução e curso da Segunda parte da questão transcendental principal. Como é possível a ciência pura da natureza?
- Conclusão: [[#§36 - Como é possível a própria natureza#A lei universal da natureza|O entendimento não extrai suas leis (a priori) da natureza, mas as prescreve a ela]]
- Kant irá elucidar que “o entendimento não extrai suas leis (a priori) da natureza, mas as prescreve a ela”, concluindo que o entendimento é a origem da ordem universal da natureza
- Apresentação da necessidade e dos benefícios do sistema de categorias desenvolvido
- A utilidades das categorias aristotélicas e as suas limitações
- Breve introdução aos “conceitos de reflexão” (expostos emKANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781)) e como através dele se produzirá a “tábua dos conceitos transcendentais da razão”
§14
Natureza é a existência de coisas enquanto determinada segundo leis universais. Se natureza significasse a existência das coisas em si mesmas, não poderíamos jamais conhecê-la, nem a priori, nem a posteriori (P69)
Kant irá começar definindo o significado de natureza e argumentando sobre a impossibilidade de conhecê-la em si mesma através da experiência (tanto a priori, quanto posteriori), pois a mesma jamais pode informar sobre a natureza das coisas em si e só pode mostrar “o que existe e como existe”, mas nunca sobre o modo dessa existência (existir daquele modo e não de outro).
§15
Kant se propõe a examinar mais detalhadamente a chamada “ciência universal da natureza” que precede toda a física (que se funda em princípios empíricos), observando que nessa ciência se encontram a matemática aplicada a aparecimentos e também princípios meramente discursivos (a partir de conceitos), entretanto, nota que existem coisas que não são inteiramente puras e independentes de fonte de experiência, como por exemplo, o conceito de movimento, de impenetrabilidade (sobre o qual se funda o conceito de matéria), inércia e etc, portanto, isso impede que seja chamada de ciência natural inteiramente pura.
Kant também aponta que essa ciência lida com objetos do sentido externo, e portanto, não constitui em sentido estrito uma ciência universal da natureza, pois ela deve subsumir a leis universais a natureza em geral, ainda que se refira ao sentido interno ou externo.
Ainda assim, entre os princípios dessa “física universal” podemos encontrar proposições que possuem a universalidade exigida e que subsistem inteiramente a priori, o que leva a conclusão que há uma ciência pura da natureza, entretanto, abrindo uma nova pergunta: como ela é possível?
§16
Kant busca estabelecer um outro significado para a palavra natureza, um que determine o objeto e não apenas indique a conformidade as leis das determinações da existência das coisas em geral (como o conceito anterior).
Natureza, considerada materialiter, é, portanto, a soma de todos os objetos da experiência (P71)
O que é materialiter?
“Materialiter” é um termo latino que significa “materialmente” ou “quanto à matéria”. Ele faz essa distinção para diferenciar o conteúdo (os objetos que podemos perceber) da forma (a conformidade a leis ou regras, discutida nos parágrafos anteriores). Ou seja, quando Kant fala de natureza materialiter, ele está se referindo a tudo aquilo que pode ser dado aos nossos sentidos dentro de uma experiência possível.
Apenas os objetos da experiência são alvo de interesse, pois coisas que não podem ser objetos de uma experiência não são passíveis de terem a sua realidade (se efetivamente se referem a objetos ou são meros entes do pensamento) decidida. A cognição de algo que não pode ser um objeto da experiência seria hiperfísica, e a realidade da cognição da natureza pelo contrário “pode ser confirmada pela experiência, ainda que seja possível a priori e preceda toda a experiência”
§17
Kant reafirma que o elemento formal da natureza, nesse sentido mais estrito é “a necessária conformidade (necessária pois essa conformidade é conhecida a priori) de todos os objetos da experiência a leis”
Kant denomina natureza como a soma dessas coisas que são “objetos de uma experiência possível” e uma vez que buscamos saber se é possível uma cognição a priori da natureza, a questão pode ser formulada das seguintes maneiras (que não alteram a solução do problema):
como é possível conhecer a priori a conformidade necessária a leis das coisas enquanto objetos da experiência ? (P71,P72)
como é possível conhecer a priori a conformidade necessária a leis da experiência ela própria em relação a todos os seus objetos em geral? (P72)
Para Kant, “sem relação com uma experiência possível não seremos capazes de estudar a priori a natureza das coisas…” a não ser “investigando as condições e leis universais (embora subjetivas) unicamente sob as quais essa cognição é possível enquanto experiência”. Portanto, o que nos é dado a priori não é uma cognição das leis sob as quais os objetos estão sujeitos em si mesmo, mas sim, a cognição das “condições necessárias para que uma experiência de objetos seja possível”.
Uma vez que a natureza pode ser denominada enquanto “o inteiro objeto de toda experiência possível”, portanto, se trata de se limitar a experiência e as condições universais dadas a priori de sua possibilidade. Kant não entende essa limitação como regras para a observação de uma natureza ja dada (que pressupõe experiência), e nem de se aprender (por experiência) as leis a partir da natureza, mas sim “como condições a priori da possibilidade da experiência”, pois para ele essas condições são “as fontes das quais todas as leis universais da natureza devem ser derivadas”.
§18
Kant irá fazer aqui a distinção entre juízos de experiência e juízos de percepção, e ainda que ambos sejam empíricos:
Juízos empíricos, na medida em que têm validade objetiva, são juízos de experiência; aqueles, entretanto, que são válidos apenas subjetivamente denomino simples juízos de percepção (P73)
Os juízos de percepção não precisam de nenhum conceito puro do entendimento, apenas da conexão lógica da percepção em um sujeito pensante, enquanto os juízos de experiência “exigem certos conceitos gerados originalmente no entendimento” para que sejam objetivamente válidos.
Para Kant, todos os nossos juízos a princípio são simples juízos de percepção (subjetivos), entretanto, que quando atribuídos a um objeto, pretende-se que esse juízo não seja mais valido apenas de maneira subjetiva, mas sim para todos os tempos e igualmente para todas as pessoas, pois “se um juízo concorda com um objeto, todos os juízos sobre o mesmo objeto devem concordar entre si (P73)“.
Nesse sentido, a validade objetiva de um juízo de experiência é nada mais que a sua validade universal necessária, sendo assim, portanto, um juízo “objetivo” (“que não expressa somente a referência da percepção a um sujeito, mas uma qualidade do objeto”). Pois os diversos juízos concordam entre si devido “a unidade do objeto ao qual todos referem”.
§19
Kant afirma que “validade objetiva” e “validade universal necessária” são conceitos intercambiáveis, pois os objetos são determinados pelas conexões de representações enquanto universalmente válidas pelo conceito do entendimento
O objeto permanece sempre desconhecido em si mesmo, mas, quando a conexão de representações que são dadas por ele a nossa sensibilidade é determinada pelo conceito do entendimento como universalmente valida, o objeto se determina por essa relação e o juízo é objetivo (P74)
§20
Kant busca analisar a experiência em geral para ver o que esta contido nesse produto dos sentidos e do entendimento, e entender inclusive como o próprio juízo de experiência é possível. Na base desse produto está
- a percepção (que diz respeito apenas ao sentido) e é uma intuição da qual estou consciente
- o juízo (que diz respeito apenas ao entendimento)
Quando as percepções são comparadas e reunidas em uma consciência do meu estado, e não em uma consciência em geral, o juízo gerado é um juízo de percepção apenas com validade subjetiva, pois para que um juízo possa constituir uma experiência é necessário que dele decorra uma validade universal e necessária.
A intuição dada deve ser subsumida a um conceito que determina a forma do juízo em geral com relação a intuição, conecta a consciência empírica desta última em uma consciência em geral e, com isso, dota os juízos empíricos de validade universal (P76)
Conceito esse que é um puro conceito a priori do entendimento e que vai “determinar, para uma intuição, a maneira geral pela qual ela pode servir para julgar” ou seja, servindo apenas para “determinar a representação que está contida sob ele em relação ao juízo em geral”, sendo assim, um juízo de experiência é precedido por certos juízos que fazem essa subsunção.
antes que um juízo de percepção possa tornar-se um juízo de experiência, requer-se primeiramente que a percepção seja subsumida a um conceito do entendimento deste tipo (P76)
Ao analisar os juízos sintéticos, Kant chega a conclusão de que jamais consistem de meras intuições, conectadas a um único juízo mediante comparações, mas sim, com o acréscimo aos conceitos abstratos da intuição de um puro conceito do entendimento ao qual aqueles conceitos são subsumidos e conectados em um juízo objetivamente válido. Kant demonstra como isso se aplica até mesmo para os juízos da matemática pura.
§21
Kant busca representar em uma tábua completa o que pertence aos juízos em geral e os diversos momentos do entendimento nos mesmos. Os conceitos puros do entendimento vão dispor-se de maneira exatamente paralela à esses momentos
Sobre os conceitos puros do entendimento e suas relações com os momentos
Esses são conceitos de intuições em geral, na medida em que estas, relativamente a um ou a outro desses momentos, são determinadas em si mesmas necessariamente e com validade universal em juízos
§21a
Kant não levanta questões a cerca da “gênese da experiência”, mas sim do que nela esta contido, e sendo assim, consolidando que além da intuição sensorial e de sua conexão lógica em um juízo (depois de tornado geral por comparação), o juízo de experiência deve acrescentar algo que determina o juízo sintético como necessário, e esse algo é justamente o conceito que representa a intuição como determinada em si mesma com respeito a uma forma de juízo mais do que outra, isto é
um conceito daquela unidade sintética das intuições que só pode ser representada por uma dada função lógica dos juízos (P81)
§22
Kant resume tudo o que foi concluído até aqui, onde a função dos sentidos é intuir e a função do entendimento é pensar.
§23
Kant explica que esses juízos são regras (condição da união de representações dadas em uma consciência), como essas regras são necessárias, são regras a priori, como não existem outras regras acima delas, são princípios. Como não há condições dos juízos de experiência acima daquelas que subsumem os aparecimentos, uma vez que esses conceitos puros, tornam os juízos empíricos objetivamente válidos, e portanto, estes são, portanto os princípios a priori da experiência possível. Com essa noção de que esses princípios da experiência possível são ao mesmo tempo leis universais da natureza, podemos dizer que é possível uma ciência pura da natureza.
Kant busca explicar a sua sistematização, que é requerida para a “forma de uma ciência”.
- As regras (que são as condições formais dos juízos em geral) constituem um sistema lógico
- Os conceitos fundados nesse sistema, que “contém as condições a priori para todos os juízos sintéticos e necessários” constituem um sistema transcendental
- Os princípios por meio dos quais todos os aparecimentos são subsumidos constituem um sistema fisiológico, ou seja, um sistema da natureza que procede toda a cognição empírica, e é isso que torna essa natureza possível
§24
O primeiro princípio fisiológico subsume todos os aparecimentos, enquanto intuições no espaço e tempo ao conceito de grandeza (esse é o princípio que permite a aplicação da matemática a experiência)
O segundo princípio fisiológico não subsume a sensação (que é propriamente empírica) diretamente ao conceito de grandeza (sensação não é uma intuição que contenha espaço e tempo), entretanto, subsume indiretamente a esse conceito, pois não é possível nenhuma percepção que exiba uma absoluta ausência, portanto, o entendimento pode antecipar até mesmo as sensações, pois todas elas, tem graus (portanto, relação indireta ao conceito de grandeza), inclusive, sendo a segunda aplicação da matemática (mathesis intensorum) a ciência da natureza.
Mathesis Intensorum (com auxílio de IA)
“A mathesis intensorum (ou mathesis intensiva) é um conceito filosófico, historicamente associado a Alexander Baumgarten e discutido no contexto da filosofia kantiana, que trata da aplicação de princípios matemáticos ou de medição a grandezas intensivas (graus de qualidade, como intensidade da luz ou calor) em contraste com as grandezas extensivas (espaço/tempo)“
§25
Kant irá demonstrar que a determinação da relação dos aparecimentos com seus princípios a priori não é matemática, mas sim dinâmica. Para isso, irá subsumir alguns conceitos a priori:
- aparecimentos: deve ser subsumido ao conceito de substância, pois uma vez que é o conceito da própria coisa é a base de todas as determinações de existência
- eventos (sucessão de aparecimentos no tempo): subsumido ao conceito de um efeito em relação a uma causa
- existência simultânea: subsumido ao conceito de comunidade / recriprocidade
Uma vez que esses princípios estão na base de juízos empíricos e objetivamente válidos, são a base da possibilidade da experiência (que busca conectar objetos na natureza segundo a sua existência). Portanto, esses princípios são as leis, da natureza, e podem ser chamados dinâmicos.
Kant explica o que constitui a doutrina fisiológica do método (“distinção entre verdade e hipóteses, e as fronteiras da confiabilidade destas últimas”) afirmando que as cognições de concordância e conexão também pertencem aos juízos de experiência, não tanto na relação desses aparecimentos entre si na experiência, mas de sua relação com a experiência em geral (sendo possível que ambos ocorram).
- concordância: concordância com as condições formais conhecidas pelo entendimento
- conexão: ligação com o material dos sentidos e da percepção
§26
O fundamento da prova
Para Kant, o que torna a sua tábua dos princípios superior é que todos os princípios sintéticos a priori estão de acordo com o principio da faculdade de julgar em geral (essência da experiencia com respeito ao entendimento).
Entretanto, acredita que o maior mérito da tábua esta no fundamento da prova, pois esse:
- revela a possibilidade dessa cognição a priori
- limita todos os princípios a única condição de “que contenham apenas a condição da experiencia possível em geral, na medida em que esta se submete a leis a priori (P85)“.
Para Kant, é impossível uma conexão sintética entre puros conceitos pois é necessário a referência a intuição sensorial e a conexão com a experiência possível, portanto, não podemos atribuir esses puros conceitos as coisas em si mesmas, e essa, é a limitação essencial dos conceitos nos princípios:
“todas as coisas estão sujeitas necessariamente a priori às mencionadas condições apenas enquanto objetos da experiência (P85)“
A aplicação da matemática à natureza é possível e determinada
Kant busca provar também de outro modo:
- os princípios não se referem diretamente a aparecimentos e sua relação, mas sim a uma possibilidade da experiência da qual os aparecimentos constituem apenas a matéria, mas não a forma
- os princípios se referem a “proposições sintéticas objetiva e universalmente validas”, e é isso que diferencia os juízos de experiência e os juízos de percepção
- os aparecimentos são intuições que ocupam uma porção do espaço e tempo
- subordinam-se ao conceito de grandeza, que une sinteticamente e a priori o múltiplo de de intuições segundo regras
- a percepção contem além da intuição a sensação, da qual entre ela e o seu desaparecimento sempre tem uma transição por diminuição (grau)
- como a sensação não tem ocupa nenhuma porção de espaço e tempo, se deduz que o que é real no aparecimento deve ter um grau
- a sensação, jamais pode ser conhecida a priori, mas pode em uma experiencia em geral, se distinguir intensivamente de outras sensações (enquanto grandeza da percepção)
Por isso, a aplicação da matemática à natureza, no que respeita à intuição sensorial através da qual ela nos é dada, é em primeiro lugar tornada possível e determinada
O modo de prova dos princípios (Analogias da experiência)
Diferente da aplicação da matemática a ciência da natureza em geral, que concerne a geração de intuições, os princípios da terceira tábua se referem a conexão de sua existência em uma experiência (existência no tempo de acordo com leis necessárias, que a tornam objetivamente valida, portanto uma experiência)
… a prova não diz respeito, portanto, à unidade sintética na conexão das coisas em si mesmas, mas sim das percepções, e, mesmo quanto a estas, não em vista de seu conteúdo, mas da determinação no tempo e da relação da existência necessária segundo leis universais (P87)
Essa leis que contem a necessidade da determinação da existência no tempo em geral (de acordo com uma regra do entendimento a priori), para que a determinação empírica no tempo relativo seja objetivamente valida, e assim, experiencia.
Portanto, experiencia não é uma composição meramente empírica de percepções, pois - ela fornece validade universal a juízos empíricos - necessita de uma unidade pura do entendimento que a preceda a priori
Material de apoio a §24, §25 e §26
Note
Em uma nota no início do §24, Kant diz que os próximos três parágrafos “dificilmente poderão ser compreendidos de maneira adequada se não se tiver a mão o que diz a Crítica sobre os princípios”. Nesse sentido, produzi uma síntese focada no “Sistema de todos os princípios do entendimento puro”
Conexão com a Crítica da Razão Pura: O Sistema dos Princípios Na Crítica, Kant detalha que as regras do nosso entendimento operam na natureza de duas formas principais:
- Correspondente ao §24 (Princípios Matemáticos): Na CRP, dividem-se em Axiomas da Intuição e Antecipações da Percepção. Eles lidam com a intuição e garantem que tudo o que aparece tem uma grandeza extensiva (espaço/tempo) e uma grandeza intensiva (grau de sensação). Eles são constitutivos e justificam a aplicação da matemática aos fenômenos.
- Correspondente ao §25 (Princípios Dinâmicos): Na CRP, dividem-se em Analogias da Experiência e Postulados do Pensamento Empírico. Eles não lidam com medidas matemáticas, mas regulam a existência das coisas e como elas se relacionam no tempo (permanência da substância, causa/efeito e comunidade).
Correspondente ao §26 (O Limite da Prova): A Crítica demonstra exaustivamente que é impossível provar esses princípios de forma dogmática (apenas analisando conceitos puros). A única prova válida é a de que sem eles a experiência seria impossível. Por isso, o uso dessas regras é estritamente imanente, ou seja, serve apenas para os objetos da experiência e nunca para as coisas em si mesmas.
§27
Kant tem como objetivo “arrancar pela raiz a dúvida humeana”. Aponta que Hume estava certo quando afirmou que
não podemos de modo algum compreender pela razão a possibilidade da causalidade
Kant afirma que os seguintes conceitos não são compreensíveis por nós:
- conceito de subsistência (nem sequer algum conceito de sua possibilidade)
- comunidade de coisas
Kant não toma esses conceitos como “derivados tão somente da experiência” e a necessidade que neles se representa como fictícia e mera ilusão, pelo contrário, mostrou que
“tanto eles como os princípios que deles se extraem valem a priori antes de toda experiência, e têm uma indubitável correção objetiva, embora, é certo, apenas em relação à experiência (P88)“
§28
Para Kant, temos em nossos juízos em geral um um conceito de uma conexão de representações, que são como representações participam de formas diferentes nos tipos de juízos
- como um sujeito em relação a um predicado
- como fundamento em relação à consequência
- como partes que, juntas, compõem uma cognição possível como um todo
A representação de um objeto é determinada em relação a um ou outro desses momentos, do contrário, não seria possível nenhuma cognição válida para o objeto.
Se o objetivo fosse o objeto em si mesmo, não haveria nenhuma característica singular que tornasse possível reconhecer esse objeto como determinado em relação a um desses momentos (substância, causa, comunidade).
Para Kant, a questão é como a cognição de coisas pela experiência esta determinada em relação aos mencionados juízos, ou seja:
como coisas enquanto objetos de experiência podem e devem ser subsumidas a esses conceitos do entendimento (P89)
A partir disso, subsume todos os aparecimento a esses conceitos, empregando-os como princípios da possibilidade de experiência
§29
Para pôr a prova o conceito de causa problemático de Hume, Kant:
Através da lógica encontra um juízo condicional em geral (o uso de uma dada cognição como fundamento e outra como consequência) e através da percepção encontra uma regra da relação que diga que certo aparecimento é constantemente seguido por outro (embora não de modo inverso) que usará como um juízo hipotético
se um corpo é iluminado pelo Sol por um tempo suficiente, então ele se aquece
Para que a proposição encontrada seja uma proposição de experiência e não apenas uma conexão subjetiva de percepções, ela deve ser considerada como válida de maneira necessária e universal, portanto, essa proposição seria
o Sol, mediante sua luz, é a causa do calor
Essa regra empírica é considerada como uma lei não valendo apenas para aparecimentos, mas para aparecimentos com vistas a uma experiência possível, que necessita de regras válidas de forma geral, e portanto necessariamente
Portanto, Kant compreende “o conceito de causa como pertencendo à mera forma da experiência e sua possibilidade como uma união sintética das percepções em uma consciência em geral” mas não “a possibilidade de uma coisa em geral como causa, porque o conceito de causa indica uma condição que não se liga de nenhum modo às coisas, mas apenas à experiência”.
Esta só pode ser uma cognição objetivamente válida de aparecimentos e de sua sucessão no tempo se o aparecimento antecedente puder ser conjugado ao aparecimento subsequente de acordo com a regra dos juízos hipotéticos.
§30
Kant irá apresentar uma completa solução para o problema de Hume, que contrária as suas expectativas, ao limitar o uso das leis universais da natureza apenas a experiência, fundando a sua possibilidade apenas na relação do entendimento com a experiência, de forma que esses conceitos não se derivem da experiência mas a experiência deles.
Kant portanto atribui o seguinte resultado a todas as investigações precedentes:
“Todos os princípios sintéticos a priori nada mais são que princípios da experiência possível”, e jamais podem se referir a coisas em si mesmas, mas apenas a aparecimentos enquanto objetos da experiência. Consequentemente, mesmo a matemática pura, assim como a ciência pura da natureza, jamais podem dizer respeito senão a simples aparecimentos, e só podem representar ou aquilo que torna possível a experiência em geral, ou aquilo que, na medida em que se deriva desses princípios, deve sempre poder ser representado em alguma experiência possível. (P91)
§31
Kant aponta as falhas e os limites dos pensadores dogmáticos e daqueles que apenas fazem o uso do bom senso que nunca se quer pensaram nesse tipo de entendimento puro com relação a experiência, ao contrário do que Kant denominará “naturalistas da razão pura” (pensadores que sem ciência alguma confiam em si mesmos para decidir questões de metafísica), que tiveram conhecimento desse tipo de noção mas se valem de princípios a priori independentes da experiência, e portanto, chegara em infundadas alegações (erro), justamente por não possui o rigor do método crítico para traçar a fronteira exata desse limite da experiência.
§32
Kant aponta o erro dos filósofos antigos em julgar que além do mundo sensível constituído por seres do sentido ou aparecimentos (phenomena) existe um mundo inteligível composto por seres do entendimento (noumena), atribuindo realidade apenas aos seres do entendimento ao tomar aparecimento e ilusão como similares.
A dedução crítica de Kant não exclui os noumena, apenas “limita os princípios da estética”, tornando-os válidos apenas para objetos de uma experiência possível, ou seja, seres do entendimento são admitidos, com a clareza de que não podemos conhecer nada de determinado sobre esses, pois nosso entendimento e intuição pura dizem respeito apenas a objetos da experiência possível, ou seja, a meros seres do sentido, e uma vez que nos afastamos destes, não restam aos outros conceitos o menor significado.
§33
Kant aponta que existem características nos conceitos puros do entendimento que podem levar a uma tentação de seu uso transcendente (uso que ultrapassa toda experiência possível), pois
- são completamente independentes da experiência
- não contém nenhum aparecimento dos sentidos (parecem-se referir a coisas em si mesmas, noumena)
- contêm em si uma necessidade de determinação que a experiência jamais atinge
Dessa forma, o entendimento inadvertidamente pode transgredir as fronteiras de seu uso (transcender).
§34
Nota sobre o método de anotação
Estou pensando que embora rico, minhas anotações estão levando muito tempo (ver os registros em KANT Immanuel. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresenta-se como ciência (1783)), acho que vou tentar ser mais rápido (e tão preciso quanto)
Kant apresenta duas investigações importantes feitas em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781)
1ª Investigação
Os sentidos não fornecem os conceitos puros do entendimento, apenas o esquema para seu uso
- o objeto a que ele se conforma encontra-se apenas na experiência
- produto do entendimento a partir dos materiais da sensibilidade
2ª Investigação
Nada que ultrapasse o campo da experiência pode ser pensado por meio dos conceitos e princípios puros do entendimento
- tudo que pode fazer é somente determinar a forma lógica do juízo acerca das intuições dadas
- uma vez que não há nenhuma intuição fora do campo da sensibilidade, não há nenhum meio de exibi-los em concreto ao extrapolar esse campo
- pois estariam desprovidos de significado
Mundo Inteligível vs Mundo Intelectual
Na nota de roda da P94, Kant faz uma distinção entre mundo intelectual e mundo inteligível a partir dessa necessidade de representação
Tanto os noumena quanto seu conjunto (mundo inteligível) são representações de um problema possível mas de solução impossível devido a natureza de nosso entendimento
- o entendimento não é uma faculdade de intuição, mas apenas de conexão de intuições dadas em uma experiência
- que deve conter, portanto, todos os objetos para nossos conceitos
- fora da experiência, todos os conceitos serão sem significado
- pois não há nenhuma intuição que lhes possa servir de base
§35
lassidão (por Gemini)
Lassidão é um estado de exaustão, cansaço físico ou mental, caracterizado por falta de ânimo, prostração e enfado. Derivado do latim lassitudo, o termo descreve um esgotamento de energia, apatia ou languidez. Pode ser um sintoma físico de esforço prolongado ou doença, bem como uma sensação de tédio ou desânimo, frequentemente associada ao “languishing” ou vazio emocional.
sempre mais fácil moderar sua ousadia que remediar sua lassidão (P95)
Entretanto, embora seja perdoável o devaneio da imaginação (que de alguma maneira pode sair fortalecida), esse não é o caso para o devaneio do entendimento, justamente porque o papel desse é justamente o de “impor fronteiras, quando necessário, aos devaneios da imaginação”. E o entendimento pode divagar quando
- traz-se luz as cognições elementares, que devem necessariamente ter uma aplicação na experiência
- remove gradualmente essas restrições e passa a se dirigir as forças recém-inventadas na natureza
- em seguida, parte para seres fora da natureza
- supridos por uma fértil invenção
- embora não possam ser comprovados pela experiência, jamais podem ser refutados por ela
Kant aponta que o apreço de jovens pensadores pela metafísica esta relacionado a criação dessas férteis ilusões irrefutáveis. Portanto, não adianta “querer moderar esses infrutíferos esforços da razão pura”, por inúmeros meios. É necessário demonstrar a impossibilidade de tais esforços e tornar o autoconhecimento da razão uma verdadeira ciência, para que o campo de seu uso legítimo se distinga claramente do seu uso “vazio e estéril”, do contrário, esses esforços jamais serão abandonados.
§36 - Como é possível a própria natureza
Essa questão deve ser encarada como a “fronteira e conclusão” da filosofia transcendental, seu ponto mais alto, e contém duas questões
1ª questão (Estética Transcendental)
Como é possível a natureza no significado material a saber, segundo a intuição, enquanto o conjunto dos aparecimentos; como são possíveis o espaço, o tempo e aquilo que preenche ambos, o objeto da sensação? (P96)
Mediante a constituição de nossa sensibilidade
Essa é a resposta que em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781) é dada em Estética transcendental, mas aqui, na solução da Primeira parte da questão transcendental principal. Como é possível a matemática pura?
2ª questão (Lógica Transcendental)
Como é possível a natureza no significado formal, enquanto conjunto das regras às quais todos os aparecimentos devem estar subordinados para que possam ser pensados como conectados em uma experiência (P96)
Mediante a constituição de nosso entendimento
Essa é a resposta que em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781) é dada em Lógica transcendental, mas aqui, na solução da Segunda parte da questão transcendental principal. Como é possível a ciência pura da natureza?
A lei universal da natureza
A questão de como é possível que a peculiar propriedade de nossa sensibilidade e da necessária apercepção que subjaz ao nosso entendimento e a todo pensamento não pode ser respondida e analisada pois sempre ela é necessária para toda resposta e para todo pensamento sobre objetos.
A possibilidade da experiência em geral é a lei universal da natureza que é constituída pelos princípios dessa possibilidade, portanto estes, sua lei. Este são as condições da unificação necessária em uma consciência, unificação essa que constitui a possibilidade da experiência
Para Kant, a mais alta legislação da natureza deve estar em nós mesmos (pois podemos conhecer a priori leis universais da natureza), entretanto, não devemos obter essas leis universais a partir da natureza por meio da experiência, mas sim procurar a natureza, no que respeito a sua conformidade universal a leis, apenas nas condições da possibilidade da experiência que se encontram em nossa sensibilidade e entendimento.
As leis como genuínas amplificações sintéticas
Kant afirma que de maneira diferente, não seria possível conhecer algo a priori pois “não são algo como leis da cognição analíticas, mas genuínas amplificações sintéticas” O que Kant está dizendo é: as leis universais da natureza (como “toda causa tem um efeito”) não são apenas regras lógicas vazias (analíticas). Elas nos dão informações reais e novas sobre como a natureza funciona (são sintéticas).
Kant pressupõe duas razões que tornam possível a concordância necessária entre os princípios da experiência possível com as leis da possibilidade da natureza, chegando a uma conclusão de que a natureza é derivada das leis da possibilidade da experiência em geral, conformando-se as leis universais, pois a possibilidade de que essas leis fossem obtidas da natureza por meio da experiência é contraditória, uma vez que as leis naturais universais podem e devem ser conhecidas a priori e postas como fundamento da experiência.
Para Kant, devemos distinguir entre leis empíricas da natureza e leis naturais puras ou universais:
- leis empíricas da natureza
- pressupõem percepções particulares
- leis naturais puras ou universais
- sem estarem fundadas em percepções particulares, contém as condições para necessária unificação destas em uma experiência
- natureza e experiência possível são uma e a mesma coisa
O entendimento não extrai suas leis (a priori) da natureza, mas as prescreve a ela (P98)
Para que uma experiência seja conforme as leis, é necessário que se funde em uma conexão necessária dos aparecimentos em uma experiência, consequentemente nas leis originais do entendimento
§37
Kant buscará elucidar a proposição de que “o entendimento não extrai suas leis (a priori) da natureza, mas as prescreve a ela” através de um exemplo sobre as leis descobertas em objetos da intuição sensorial.
§38
Através de uma lei das propriedades do círculo, Kant demonstra que só é possível derivar as provas dessa lei da condição que o entendimento tomou como base, portanto, não é o círculo que contem si mesmo o fundamento dessa lei, esse fundamento é proveniente do entendimento, fruto da própria construção. Por mais simples que sejam suas fontes, a consequência dessa lei é valiosa com respeito a variedade e regularidade de sua concordância, por isso, pode ser concebida como apropriada ao sistema do mundo.
A partir desse exemplo de uma “natureza fundada em leis que o entendimento conhece a priori e, em especial, a partir de princípios universais da determinação do espaço”, Kant levanta outras questões:
- estão essas leis da natureza no espaço, e o entendimento as descobre… ?
- estão essas leis no entendimento, na maneira pela qual este determina o espaço de acordo com as condições da unidade sintética para a qual todos os seus conceitos estão dirigidos?
Kant justifica que uma vez que o espaço é tão uniforme e indeterminado que não se pode buscar nele um repositório de leis naturais, é o entendimento que contém o fundamento da unidade de construção dessas figuras. Por tanto, Kant irá definir a forma universal da intuição denominada espaço como:
o substrato de todas as intuições determináveis em objetos particulares, e nele se encontra, sem dúvida, a condição da possibilidade e variedade dessas intuições, mas a unidade dos objetos é determinada apenas por meio do entendimento e, com efeito segundo condições que residem na sua própria natureza; (P100)
Portanto, o entendimento é a “origem da ordem universal da natureza”, produzindo, em primeiro lugar, experiência a priori (com respeito a forma), pois tudo que deve ser conhecido por meio da experiência precisa estar subordinado as suas lei, uma vez que não estamos lidando com as coisas em si mesmas, independentes de condições do sentido e do entendimento, mas com a natureza enquanto objeto de uma experiência possível.
o entendimento, ao tornar a experiência possível, faz, ao mesmo tempo, com que o mundo sensível ou não seja nenhum objeto da experiência, ou seja uma natureza (P101)
§39
Kant apresenta a necessidade e os benefícios do sistema de categorias desenvolvido (comparando com a gramática inclusive, que fornece as regras para formação da linguagem).
Kant aponta as utilidades das categorias aristotélicas, que serviram como “pista para futuras investigações”, apontando os critérios que o levaram a excluir as categorias de “tempo”, “lugar” e “posição” como conceitos puros do entendimento e as limitações que o levaram a não considerar as demais categorias (porque elas já foram provadas como sendo formas puras da sensibilidade, e não funções lógicas do pensamento)
Kant irá descrever como desenvolveu e estruturou o seu sistema de categorias e seus componentes, apontando o que é essencial nesse sistema e o que o difere do sistema aristotélicos, justificando como o mesmo torna possível os juízos de experiência em geral. Para Kant, sem restringir o uso das categorias aristotélicas apenas à experiência, as mesmas são “inúteis e não passam de uma reles lista de nomes, sem explicação ou regra para seu uso (P103)”
Ora, esse sistema das categorias, por sua vez, sistematiza o tratamento de qualquer objeto da razão pura, provendo uma indubitável indicação ou fio condutor sobre como, e através de quais etapas de investigação, uma consideração metafísica deve ser dirigida para torna-se completa, pois ele exaure todos os momentos do entendimento aos quais se subsumem todos os conceitos (P104)
Kant defende que através desse sistema (fio condutor), é possível conhecer o objeto de um conceito puro do entendimento ou da razão, sem dúvidas, formando um “círculo fechado”. Além disso, esse sistema é capaz de repelir “conceitos estranhos”, que poderiam “misturar-se a esses conceitos puros”, esses conceitos Kant denomina “conceitos de reflexão” e expôs em uma tábua em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781)
Kant aponta também que a utilidade dessa distinta tábua se dará na separação das categorias e na construção da “tábua dos conceitos transcendentais da razão”, necessária a qualquer sistema de metafísica
Terceira parte da questão transcendental principal. Como é possível a metafísica em geral?
(TL;DR)
- o núcleo da metafísica, os conceitos puros da razão e sua relação com a completude
- justifica as investigações precendentes (ciência pura e matemática pura)
- os conceitos puros da razão como núcleo da metafísica
- jamais são dados em nenhuma experiência possível
- a necessidade de completude e da totalidade absoluta dos conceitos puros da razão
- a importância da distinção entre as idéias (conceitos puros da razão) e as categorias (conceitos puros do) entendimento para a fundação de uma ciência e para a metafísica
- a dialética presente nas cognições transcendentes da razão
- a origem das idéias presente nas três funções do silogismo
- a distinção formal dos silogismos: categóricos, hipotéticos e disjuntivos
- os conceitos da razão: psicológica, cosmológica e teológica
- a divisão de toda a dialética da razão pura: paralogismo, antinomia e ideal da razão pura
- como a razão diferem das categorias e os limites impostos por essa distinção
- o problema da completude de princípios
- possibilidade da concordância entre natureza da razão e entendimento
- como a busca por conceitos de noumena levam a idéias transcendentais (que inevitavelmente conduzem a ilusão)
- Ideias Psicológicas: O “eu” como ” designação do objeto do sentido interno”
- a busca pelo elemento substancial no sujeito pensante
- as condições de provas da persistência
- as condições para a prova da persistência da alma
- somente a experiência pode provar a correspondência das percepções
- Ideias cosmológicas: os conceitos que a nossa razão produz quando tenta compreender o universo (o mundo sensível) como um todo completo e absoluto
- demonstração do seu sistema de categorias
- os quatro tipos de asserções dialéticas da razão pura
- os conflitos mediante tese e a antítese
- a ilusão dialética da razão pura (falha oculta nas pressuposições da razão)
- o conceito contraditório presente nas antinomias matemáticas
- o conceito contraditório presente nas antinomias dinâmicas
- a liberdade e a necessidade natural
- o ganho para o conhecimento da razão humana a partir da solução da antinomia
- Ideia teológica: ilusão dialética
- quando tomamos as condições subjetivas de nosso pensamento por condições objetivas das coisas em si mesmas
- os problemas das ideias transcendentais
- as consequências de se abandonar completamente a natureza ou transcender a experiência possível
- o problema dos conceitos puros da razão (idéias psicológica, cosmológica e teleológica)
- os problemas do uso do sistema enquanto cognição constitutiva
§40
Kant afirma que as investigações precedentes foram necessárias não para os seus alvos (a matemática pura e a ciência pura da natureza), mas sim a própria metafísica.
A metafísica ocupa-se não só dos conceitos próprios da natureza, mas também dos conceitos puros da razão, que jamais são dados em nenhuma experiência possível:
conceitos cuja realidade objetiva (o fato de que não são meras fantasias) e asserções cuja verdade ou falsidade não podem ser confirmadas ou descobertas por nenhuma experiência (P107)
Esses conceitos constituem o seu fim essencial, o seu núcleo, a sua marca característica, resumida por Kant como
a ocupação da razão simplesmente consigo mesma e a familiaridade com objetos que se presume surgir imediatamente do fato de que ela incuba seus próprios conceitos sem necessitar da intermediação da experiência, e que sequer pode ser alcançada de algum modo por meio desta (P107,P108)
Nota sobre o porque perguntar como a metafísica é objetivamente possível (ainda que subjetivamente real)
Cada experiência individual é apenas uma parte de toda a esfera de seu domínio, a totalidade absoluta de toda experiência possível não é, ela própria uma experiência
A metafísica portanto, necessita de conceitos inteiramente diferente dos conceitos puros do entendimento
- pois o uso destes são imanentes (referente a experiência tanto quanto esta pode ser dada).
Os conceitos da razão pelo contrário, se extendem a completude (unidade coletiva de toda a experiência)
- por isso são transcendentes (excedendo a experiência possível)
Assim como o entendimento necessitava das categorias para a experiência, a razão contém em si a base para as idéias, que Kant define como
- “conceitos necessários cujo objeto, contudo, não pode ser dado em nenhuma experiência”
- inerentes a natureza da razão
Kant chega a conclusão que, entretanto, a ilusão (que define como “tomar por objetiva a base subjetiva de um juízo”) é inevitável, e a única prevenção contra o erros - conhecimento que a razão pura tem de si mesma em seu uso transcendente (hiperbólico)
Portanto, os erros acontecem quando quando a razão interpreta erroneamente sua vocação e refere-se transcendentalmente ao objeto em si mesmo aquilo que concerne apenas ao seu sujeito (ilusão transcendental)
§41
Kant aponta que a distinção entre as ideias (conceitos puros da razão) e as categorias (conceitos puros do entendimento) é fundamental para a fundação de uma ciência, e que sem essa divisão, a metafísica é absolutamente impossível, reforçando por isso os resultados obtidos em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781)
§42
Uma vez que ao contrário das cognições puras do entendimento, as cognições transcendentes da razão não permitem que o que se relacione as suas idéias seja dado na experiência, nem a confirmação ou refutação de suas teses, apenas a pura razão pode descobrir o erro que porventura nelas (nas idéias) se infiltre.
Entretanto, existe uma dificuldade nisso que consiste no fato dessa mesma razão se tornar naturalmente dialética mediante suas idéias (lógica da aparência), produzindo portanto ilusões que só podem ser mantidas nos limites por investigações subjetivas.
A noção de dialética para Kant
Ao falar sobre as cognições transcendentes da razão, que não permitem o uso da experiência para o embasamento de suas idéias, Kant afirma que essa razão se torna “naturalmente dialética mediante as suas idéias” e ainda que “essa ilusão inevitável não pode ser mantida dentro de limites” por nenhuma investigação objetiva, apenas por uma investigação subjetiva da razão enquanto fonte das ideias
Portanto, Kant considera que a razão, uma vez que se torna “naturalmente dialética” produz necessariamente ilusões
De acordo com as minhas buscas, Kant” retoma a noção aristotélica quando define a dialética como a “lógica da aparência”, argumentando que essa ilusão gerada pela razão não é um erro acidental que pode ser simplesmente apagado, mas uma tendência natural e inevitável da nossa mente
§43
Kant aponta que o fundamental em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781) foi conhecer a priori que a enumeração, classificação e especificação dos conceitos de cada tipo de cognição, pois sem isso na metafísica “nunca se sabe se o que se possui ja é o suficiente, ou se, e onde, algo ainda poderia estar faltando”.
Kant justifica a sua busca pela origem das ideias nas três funções do silogismo
O silogismo é uma forma de raciocínio dedutivo estruturada por Aristóteles, consistindo em duas premissas (maior e menor) que levam a uma conclusão lógica.
Se esses conceitos puros da razão (ideias transcendentais) estão dados, e não se quiser toma-los como inatos, somente seria possível encontra-los nesse ato da razão, que na medida que se relaciona apenas a forma, constitui o elemento lógico no silogismo.
Uma vez que representa os juízos do entendimento como estando determinados com respeito a uma ou outra forma a priori, constitui os conceitos transcendentais da razão pura
Kant realiza a distinção formal dos silogismos em: categóricos, hipotéticos e disjuntivos, e a partir disso, extrai os conceitos da razão neles fundados - psicológica: a ideia do sujeito completo (o substancial) - cosmológica: a ideia da série completa de condições - teológica: a determinação de todos os conceitos na ideia de um conjunto completo do possível
Nota sobre os juízos disjuntivos
Nota em P111 sobre porque considera toda possibilidade como dividida em relação a certo conceito nos juízos disjuntivos
Para Kant, os três conceitos dão origem a uma dialética (ilusão, aparência), e portanto, nisso se funda “a divisão de toda a dialética da razão pura” (que é capaz de representar todas as pretensões da razão pura)
- no paralogismo
- na antinomia
- no ideal da razão pura
Assim, a própria faculdade da razão esta completamente mensurada
§44
Kant explica como as ideias da razão diferem das categorias, não nos servindo de modo algum para o emprego do entendimento em relação a experiência. Sendo portanto
- dispensáveis em relação a experiência
- contrárias e impeditivas das máximas da cognição da natureza pela razão
Apontando os limites impostos por essa distinção e inclusive afirmando que devemos evitar usar a vontade divina para a organização da natureza (pois significaria o fim da investigação ciêntífica), Kant afirma que a crítica do entendimento se junta as ideias da pura razão para um propósito que “ultrapassa o uso do entendimento na experiência”, levantando a hipótese de que
“Deve haver, porém, uma concordância entre o que pertence à natureza da razão e à do entendimento, e a primeira deve contribuir para o aperfeiçoamento do segundo, e não é possível que venha a confundi-lo” (P112)
Kant apresenta a solução dessa questão:
a razão pura, em suas ideias, não tem em vista objetos particulares situados além do campo da experiência, mas exige apenas a completude no uso do entendimento em conexão com a experiência (P112)
Essa completude só pode ser uma completude de princípios, não das intuições e objetos, entretanto:
- Para representar esses princípios de maneira determinada, a razão os concebe como a cognição de um objeto
- Essa cognição esta, portanto, completamente determinada com respeito a essas regras (da cognição de um objeto)
- Entretanto, o objeto é apenas uma ideia concebida para trazer a cognição do entendimento o mais próximo possível da completude que essa idéia significa
§45 - Observação preliminar sobre a dialética da razão pura
Kant reforça que a razão pode ser seduzida a estender seu uso inteiramente para além de toda a experiência, até as coisas em si mesmas (que foi mostrado em §33 e §34).
Entretanto, as próprias categorias não conseguem encontrar nenhuma intuição que pudesse prover de significado e sentido in concreto
- e portanto não podem prover nenhum conceito determinado de uma coisa qualquer, mas enquanto meras funções lógicas, podem representar uma coisa em geral
Kant demonstra como o conceito de noumena (puro seres do entendimento, seres do pensamento) perde todo o significado, e ainda como a sua busca levam as ideias transcendentais, que inevitavelmente conduzem a ilusão.
O entendimento só pode ser mantido dentro dos limites por meio da instrução científica e à custa de muito esforço
§46 - Ideias psicológicas (KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781), p. 341 e seguintes)
- Em todas as substâncias o verdadeiro sujeito, assim como o próprio substancial nos é desconhecido
- sujeito: aquilo que resta após serem removidos todos os acidentes (enquantos predicados)
Isso não acontece devido aos limites de nossa compreensão, mas sim, por aspirar conhecer, de maneira determinada, como um objeto dado, aquilo que é apenas uma idéia.
A pura razão fará exigências que levarão a um retorno a um retorno ao infinito e disso se segue que nada que podemos atingir deve ser tomado como um sujeito ultimo devido a natureza específica do entendimento
a natureza específica de nosso entendimento consiste em pensar tudo discursivamente, isto é, por meio de conceitos, consequentemente, por meio de meros predicados, dos quais o sujeito absoluto deve estar, portanto, sempre ausente (P114)
Justifica que, portanto, todas as reais propriedades pelas quais conhecemos corpos, são meros acidentes para os quais não dispomos de um sujeito.
Levanta-se a suspeita de que o elemento substancial esteja na consciência de nosso eu (no sujeito pensante), devido ao fato de que parece que todos os predicados do sentido interno referem-se ao eu enquanto sujeito, e este não pode mais ser pensado como predicado de algum outro sujeito. - Entretanto, esperar que o sujeito absoluto esteja dado na experiência é uma expectativa frustada
O eu não é um conceito, mas sim
uma designação do objeto do sentido interno (P115)
- não podemos conhecê-lo adicionalmente por meio de nenhum predicado
- em si, não possa ser o predicado de nenhuma outra coisa
- tampouco possa ser um conceito determinado de um sujeito absoluto
- apenas a referência dos aparecimentos internos ao seu sujeito desconhecido
O "eu" como "designação do objeto do sentido interno"
O “sentido interno” é a nossa capacidade de perceber nossos próprios estados mentais e psicológicos. Quando Kant afirma que o “eu” é apenas uma “designação do objeto do sentido interno”, ele quer dizer que o “eu” funciona como um simples rótulo ou marcador para quem vivencia essas percepções.
Ele não é um conceito descritivo e não nos dá nenhuma informação sobre a natureza desse sujeito. O “eu” serve apenas como um ponto de referência para agrupar os aparecimentos internos, sem jamais nos revelar o “sujeito desconhecido” em si mesmo (a alma).
O conhecimento do ser pensante situa-se completamente fora do conjunto da experiência
§47
Kant afirma que o conceito de eu pensante (alma) continua vazio e sem nenhuma consequência se não puder provar a sua persistência.
Entretanto, a persistência só pode ser provada com vistas à experiência
- demonstrado na primeira analogia da experiência em KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781), p. 182)
Proposições sintéticas a priori como estas jamais podem ser provadas em si mesmas, mas apenas em relação as coisas enquanto objetos de uma experiência possível (P116)
§48
Uma vez que a vida é a condição subjetiva de toda nossa possível experiencia, Kant conclui que a persistência da alma só pode ser provada durante a vida de um ser humano
- porque a morte significa o fim de toda a experiência (no que respeito a alma enquanto um objeto da experiência)
Como foi inferida a necessária continuidade da alma após a morte do ser humano
Na P116 e P117 existe uma nota sobre o princípio da persistência da memória e sobre como a ausência em suas provas levou ao errôneo conceito de alma como uma substância, e infeririam sua necessária continuidade após a morte do ser humano
§49
… nossas percepções externas não apenas correspondem, mas devem corresponder alguma coisa real fora de nós
Para Kant, isso só pode ser provado para os propósitos da experiência
- objetos que não podem ser dados por meio de uma experiência não significam nada para nós
Fora de mim, empiricamente, esta aquilo que pode ser intuído no espaço e esse espaço (junto com todos os seus aparecimentos)
- pertence as representações cuja conexão segundo as leis da experiência prova sua verdade objetiva
- a conexão dos aparecimentos do sentido interno prova a realidade da minha alma (como um objeto do sentido interno)
Por meio dos aparecimentos externos, estou consciente da realidade dos corpos enquanto aparecimentos externos no espaço
Por meio da experiência interna, consciente da existência, no tempo, da minha alma, a qual conheço apenas como um objeto do sentido interno por meio de aparecimentos que constituem um estado interno
- o ser em si mesmo que subjaz a esses aparecimentos é desconhecido
Note
Kant irá apontar as limitações do Idealismo Cartesiano ao considerar que a “experiência carrega consigo critérios seguros para distingui-la da imaginação”.
- O idealismo material é superado através da conexão dos aparecimentos com a experiência, pois o conceito fora de nós significa “existência no espaço”, portanto, pode se afirmar:
- existem corpos fora de nós
- eu mesmo existo
Kant afirma que a pergunta “se os corpos (aparecimentos do sentido externo)” existem fora de meu pensamento como corpos na natureza” pode ser respondida negativamente
- entretanto o mesmo ocorre a questão sobre se eu próprio (a alma, aparecimento do sentido interno) existo no tempo fora de meu poder de representação
O idealismo formal (antes chamado idealismo transcendental) supera o idealismo material (ou cartesiano), uma vez que trata-se o espaço como uma forma da sensibilidade (lhe conferindo realidade), resta apenas a questão da verdade empírica dos aparecimentos nesse espaço
Para Kant, se o espaço e seus aparecimentos existissem fora de nós não seria possível provar a realidade desses objetos, pois não poderiam ser usados nossos critérios de experiência
§50 - Ideias cosmológicas (KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781), p. 405 e seguintes)
Material de Apoio (por NotebookLM)
com KANT Immanuel. Crítica da Razão Pura (1781) e KANT Immanuel. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresenta-se como ciência (1783) como fontes) as ideias cosmológicas são os conceitos que a nossa razão produz quando tenta compreender o universo (o mundo sensível) como um todo completo e absoluto
- A base é o mundo físico: Diferente da ideia de alma (que foge dos sentidos), as ideias cosmológicas lidam com coisas que percebemos no mundo, como espaço, tempo, matéria e causalidade.
- A busca pelo limite: O problema é que a nossa razão não se contenta em ir de uma causa para outra. Ela tenta “esticar” essas conexões até o limite máximo para encontrar respostas definitivas. Por exemplo, ela quer saber se o mundo teve um começo absoluto no tempo ou se as coisas são divisíveis até chegar a uma parte simples e final.
- Por que são “ideias”: Como nós, seres humanos, somos limitados, nunca poderemos vivenciar o “infinito” ou o “início de tudo” na prática. Como essas noções vão muito além de qualquer experiência possível, elas são chamadas de ideias (não há nenhum objeto real na nossa experiência que corresponda a elas). Em resumo, é a nossa mente tentando abraçar a totalidade do universo de uma vez só. É exatamente essa tentativa impossível que faz a razão entrar em curto-circuito, gerando as Antinomias (os paradoxos inevitáveis que você mencionou no seu resumo)
Kant inicia dizendo que essas ideias são produto da razão pura em seu uso transcendente e seu mais notável fenômeno. E o que mais fortemente atua para despertar a filosofia de seu sono dogmático e impeli-la o difícil afazer da própria critica da razão.
Autóctone
Baseado no contexto da filosofia kantiana, especialmente sua História Geral da Natureza e Teoria do Céu (1755), “autóctone” refere-se à capacidade de o universo se organizar, desenvolver e mover-se a partir de leis internas da matéria, sem intervenção divina direta contínua. Ele usa essa palavra (que significa “nativa” ou “nascida na própria terra”) para fazer um contraste direto com a ideia da alma (psicológica). É justamente porque essa Ideia tenta tratar o “todo do universo” como se fosse um objeto normal da experiência que a nossa razão entra em curto-circuito. Esse curto-circuito gera as famosas Antinomias (os paradoxos inevitáveis da razão), e é por isso que ela nos desperta do “sono dogmático”.
Kant chama essa ideia cosmológica pois:
- sempre toma seu objeto apenas do mundo sensível
- não necessita de outro mundo além daquele cujo objeto é um objeto dos sentidos
- é autóctone, não transcendente
- não é ainda, sob esse aspecto, uma idéia
Pensar a alma como uma substancia simples equivale a pensa-la como um objeto do tipo que não pode ser representado aos sentidos
A ideia cosmológica expande em tão alto grau a conexão do condicionado com a sua condição que a experiência jamais pode igualá-la (seja esta condição matemática ou dinâmica). Sempre será uma ideia cujo objeto jamais pode ser dado adequadamente em nenhuma experiência
§51
Material de Apoio (por NotebookLM)
comKANT Immanuel. Prolegômenos a qualquer metafísica futura que possa apresenta-se como ciência (1783) como fonte
- Kant usa essas quatro disputas (as Antinomias) para provar que a nossa mente “quebra” quando tenta entender o universo como um todo absoluto.
- elas são consideradas plausíveis porque, usando a pura lógica, você consegue criar argumentos racionais e perfeitos tanto para defender a Tese quanto para defender a Antítese. Ou seja, um filósofo pode provar por A+B que o mundo teve um começo, enquanto outro prova com a mesma exatidão que o mundo é infinito.
- Como as duas afirmações opostas podem ser “provadas” logicamente sem violar as regras do pensamento, cria-se um conflito insolúvel. Para Kant, esse choque inevitável é a prova definitiva de que a razão ultrapassou seus limites e está tentando julgar algo que não lhe é dado na experiência.
- Faz sentido pensar nessas antinomias como um “curto-circuito lógico” que serve justamente para nos alertar sobre os limites da nossa mente
Kant irá demonstrar o sistema de categorias, para ele indispensável ao sistema da razão pura, afirmando que independente quantas são as classes de categoria, não há mais do que quatro dessas ideias transcendentes nela. E estas
- se referem apenas à completude absoluta da série de condições para um dado condicionado
Para Kant, de acordo com essas ideias cosmológicas, só existem quatro tipos de asserções dialéticas da razão pura, que se revelam dialéticas pois
a cada uma delas se opõe uma asserção contraditória que está de acordo com princípios igualmente plausíveis da razão pura (P120) Um conflito que só pode ser evitado voltando-se as primeiras fontes da própria razão pura.
Uma antinomia, de modo algum inventada, mas fundada na natureza da razão humana, sendo portanto “imutável e permanente”, contendo as quatro proposições juntos de suas opostas
| Nº | Tese | Antítese |
|---|---|---|
| 1 | O mundo, segundo o tempo e o espaço, tem um começo (uma fronteira) | O mundo, segundo o tempo e o espaço, é infinito |
| 2 | Tudo no mundo é constituído pelo simples | Não há nada simples, mas tudo é composto |
| 3 | Existem no mundo causas pela liberdade | Não há liberdade, mas tudo é natureza |
| 4 | Na série de causas no mundo há algum ser necessário | Não há nela nada necessário, mas, nessa série, tudo é contingente |
§52
Kant fala sobre o inesperado conflito que se produz e que jamais pode ser resolvido pela via dogmática usual, e aponta a diferença na posição do cético e do filósofo crítico
tanto a tese quanto a antítese podem ser demonstradas mediante provas igualmente evidentes, claras e incontestáveis… a razão se vê, portanto, dividida contra si mesma (P121)
§52b
Kant demonstra como a razão revela a contragosto a ilusão dialética da razão pura (a qual representa falsamente como dogma), através das quatro ideias naturais da razão que resultam em tese e antítese, ambas seguindo consistentemente de princípios universalmente aceitos, portanto revela uma falha oculta nas pressuposições da razão:
Duas proposições mutuamente contraditórias não podem ambas ser falsas, exceto se o conceito que subjaz às duas for ele próprio contraditório (P122)
Para Kant esta é uma prova decisiva que revela uma falha oculta nas pressuposições da razão, a marca lógica da impossibilidade de um conceito
- justamente que sob a pressuposição desse conceito, duas proposições contraditórias seriam simultaneamente falsas. Dado que entre estas não se pode pensar nenhuma terceira proposição, absolutamente nada é pensado mediante esse conceito
§52c
Denomina as duas primeiras antinomias como matemáticas.
Kant busca explicar sobre um conceito contraditório presente nas duas primeiras antinomias (que denomina matemática), e também, explicando como vem a ocorrer que tanto a tese como a antítese sejam ambas falsas.
Refletindo sobre os objetos no tempo e no espaço, enquanto modo de representação, seria contraditório dizer que exista fora da representação
- os objetos do sentido, portanto, existem apenas na experiência
1ª: Quanto a grandeza do mundo no espaço e no tempo, demonstra como nenhuma alternativa pode estar contida na experiência (pois são apenas ideias). O conceito de um mundo sensível existindo por si mesmo é autocontraditório, portanto, o problema de sua grandeza sempre será falso.
2ª: O mesmo conceito autocontraditório vale para a segunda antinomia (divisão dos aparecimentos), pois estes são meras representações e não há como afirmar que meras representações existem antes de serem encontradas na faculdade de representação
§53
Kant faz uma distinção entre a primeira e a segunda classe da antinomia, onde
- primeira classe da antinomia (matemática)
- o autocontraditório é representado em um conceito como compatível
- ex: um aparecimento enquanto coisa em si mesma
- ambas as asserções opostas eram falsas
- conexão matemática pressupõe necessariamente homogeneidade
- grandeza
- o autocontraditório é representado em um conceito como compatível
- segunda classe da antinomia (dinâmica)
- o compatível é representado como contraditório
- podem ser ambas verdadeiras
- conexão dinâmica não pressupõe necessariamente homogeneidade
- causa e efeito / causalidade
Em seguida, Kant demonstrará que nenhuma contradição se produz se a necessidade natural refere-se apenas aos aparecimentos e a liberdade apenas a coisas em si mesmas, desde que os dois tipos de causalidades sejam igualmente admitidos ou assumidos.
Nota sobre a liberdade e a relação com o intelectual na P126
Na P127, Kant faz uma síntese de suas conclusões:
todas as ações de seres racionais, na medida em que são aparecimentos (são encontradas em alguma experiência), submetem-se à necessidade natural (P127)
mas essas mesmas ações, se referidas apenas ao sujeito racional e a sua faculdade de agir de acordo com a mera razão, são livres (P127)
O que se requer, pois, para a necessidade natural? Nada além da determinabilidade de todo evento no mundo sensível de acordo com leis constantes
- portanto, uma relação com uma causa no aparecimento, enquanto coisa em si mesma, que lhe subjaz, e sua causalidade permanecem desconhecidas
Kant afirma que a lei da natureza permanece, quer o ser racional
- seja uma causa de efeitos no mundo sensível pela razão, e portanto, mediante a liberdade
- ação de acordo com leis constantes
- não os determine a partir de bases racionais
- ainda assim, submetida a leis empíricas da sensibilidade
Kant conclui que
a liberdade não opõe obstáculos a lei natural dos aparecimentos e tão pouco essa lei prejudica a liberdade do uso prático da razão, que está relacionado a coisas em si mesmas como seus fundamentos determinantes (P128)
Liberdade Prática: Aquela em que a razão tem uma causalidade de acordo com fundamentos objetivos determinantes
Liberdade Transcendental e sua unificação com a necessidade natural (no mesmo sujeito, mas não em uma mesma relação). Uma vez que a relação de uma ação com os fundamentos objetivos da razão não é uma relação temporal
em seres racionais ou em quaisquer seres em geral, desde que sua causalidade seja neles determinada como coisas em si mesmas, , pode-se conceber, sem entrar em contradição com as leis da natureza, uma faculdade de dar início, por si próprios, a uma serie de estados (P128)
Kant mostra que a quarta antinomia é eliminada através da distinção de causa do aparecimento e causa no aparecimento
§54
Kant aponta o ganho para o conhecimento da razão humana da solução da antinomia que a razão se encontra emaranhada, que é a constatação de que é impossível escapar desse conflito da razão consigo mesma se continuarmos tratando os objetos do mundo sensível como “coisas em si mesmas”
§55 - Ideia teológica (Crítica, p. 517 e seguintes)
Kant irá falar sobre a terceira ideia transcendental, o ideal da razão pura, hiperbólico (transcendente) e, com isso, dialético se conduzido de forma puramente especulativa
… rompe inteiramente com a experiência e, a partir de meros conceitos do que constituiria a absoluta completude de uma coisa em geral (…), desce até a determinação da possibilidade e com isso também da realidade de todas as outras coisas
ilusão dialética resulta do fato de que tomamos as condições subjetivas de nosso pensamento por condições objetivas das coisas em si mesmas, e uma hipótese que é necessária para a satisfação de nossa razão por um dogma (P130)
Kant afirma que o que a Crítica diz sobre a teologia transcendental é compreensível, evidente e conclusivo
§56 - Nota geral às ideias transcendentais
Kant mostra as consequências de se abandonar completamente a natureza ou transcender a experiência possível, levando a problemas que sempre serão, de maneiras ilusórias (dialéticas) justificáveis e resolvíveis.
As ideias psicológica, cosmológica e teológica são apenas conceitos puros da razão, que não podem ser dados em nenhuma experiência,
- as questões que a razão nos apresenta a seu respeito não são propostas pelos objetos, mas por simples “máximas da razão com vistas a sua autossatisfação”
- são “princípios para levar nosso uso do entendimento a um pleno acordo, completude e unidade sintética”, validas apenas para a experiência, embora em sua totalidade.
Embora uma totalidade absoluta da experiência seja impossível, uma totalidade de cognição segundo princípios em geral é a única coisa que pode prove-la de um tipo especial de unidade portanto, um sistema.
- sem um sistema nossa cognição nada mais é que um fragmento
As ideias transcendentais expressam, portanto, a peculiar vocação da razão, a saber, como um princípio da unidade sistemática do uso do entendimento (P132)
Essa unidade do modo de cognição não deve ser considerada como inerente ao objeto da cognição, e se essa unidade regulativa, é tomada como constitutiva, e ai nos convencermos que podemos expandir o conhecimento muito além de toda a experiência possível (transcendente) - Essa unidade serve apenas para trazer a experiência o mais próximo da completude em seu próprio interior, não limitando seu progresso por nada que não possa pertencer a experiência.
Portanto, se usarmos o conhecimento dessa forma
tudo isso é simplesmente uma incompreensão na estimativa da verdadeira vocação de nossa razão e de seus princípios, e uma dialética que, em parte, confunde o uso da razão na experiência e, em parte, põe a razão em conflito consigo mesma
Conclusão. Da determinação das fronteiras da razão pura
(TL;DR)
- A necessidade de uma determinação formal das fronteiras do uso da razão estabelecida a partir de princípios
- A distinção entre limites e fronteiras e os limites das ciências
- Como a metafísica leva as fronteiras da razão pura
- A conexão do conhecido com o completo desconhecido (exemplo do conceito deístico)
- As objeções de Hume ao deísmo e ao teísmo (antropomorfismo)
- A fronteira de todo o uso permitido da razão
- A crítica da razão como o meio termo entre o dogmatismo que Hume combateu e o ceticismo que ele quis introduzir em seu lugar
- Como a razão procede para demarcar as fronteiras do entendimento em relação aos dois campos
- A solução analítica de Kant para a questão principal “Como é possível a metafísica em geral?”
§57
A necessidade de uma determinação formal das fronteiras do uso da razão estabelecida a partir de princípios
Kant afirma que seria um erro “não admitirmos nenhuma coisa em si mesma” ou “querer apresentar nossa experiência como o único modo de conhecimento das coisas”, ou seja, “querer tomar os princípios da possibilidade da experiência como condições universais das coisas em si mesmas”
- os princípios que limitam o uso da razão a experiência poderiam se tornar eles próprios transcendentes
- tornar os limites da razão em limites da possibilidade das coisas em si mesmas
- Kant afirma que “Diálogos de Hume” é um exemplo disso
- tornar os limites da razão em limites da possibilidade das coisas em si mesmas
Por isso, é necessário uma cuidadosa crítica que defenda as fronteiras de nossa razão mesmo com respeito a seu uso empírico, pondo um termo as suas pretenções.
Kant irá mostrar as falhas e a origem do ceticismo, afirmando que o mesmo brotou “da metafísica e de sua dialética indisciplinada”. A partir disso, uma confusão surgiu na ciência, que “não pode determinar até que ponto se deve confiar na razão”
- Portanto, é necessário por meio de “uma determinação formal das fronteiras do uso da razão estabelecida a partir de princípios” remediar essa confusão
A distinção entre limites e fronteiras e os limites das ciências
Kant demonstra como “a experiência jamais satisfaz inteiramente a razão” através dos exemplos da busca pela natureza da alma, questões cosmológica e da existência de um ser superior.
- Fronteira (em coisas extensas): pressupõem um espaço que se encontra fora de uma locação fixa e que a encerra
- Limites: não requerem nada desse tipo, mas são meras negações que afetam uma grandeza na medida em que ela não possui absoluta completude
Kant distingue entre fronteiras e limites, mostrando que a nossa razão vê ao seu redor como que um “espaço para a cognição das coisas em si mesmas” (mesmo limitada aos aparecimentos), afirmando que enquanto “a cognição da razão for homogênea”, não se pode pensar em nenhuma fronteira determinada para ela
Afirma que na matemática e ciência natural, a razão reconhece limites, mas não fronteiras, reconhece que, fora dela, há algo que jamais poderá alcançar, mas não que ela própria, em sua evolução anterior, vá em algum ponto completar-se
- Portanto, não existe aproximação entre essas ciências (matemática, ciência pura e metafísica)
Como a metafísica leva as fronteiras da razão pura
A metafísica por outro lado, mediante as tentativas dialéticas da razão pura, nos conduz a fronteiras, e:
as ideias transcendentais, exatamente porque são inescapáveis e, contudo, jamais se deixam realizar, server não apenas para nos mostrar efetivamente as fronteiras do uso puro da razão, mas também o modo de determiná-las (P136)
Kant irá afirma que a metafísica não pode ser vista como produto de uma escolha arbitrária ou como uma extensão acidental da evolução das experiências, ela esta colocada em nós (talvez mais do que qualquer outra ciência) pela natureza
A razão vê que o mundo sensível não pode conter a completude necessária para alimentar as ideias transcendentais. Para se ver satisfeita quando a seu anseio pela “integralidade na progressão do condicionado a suas condições”, a cognição busca por uma cognição das coisas em si mesmas.
Uma vez que as ideias transcendentais conduzem até o contato do espaço pleno (da experiência) com o vazio (do qual nada podemos saber, os noumena), podemos também determinar as fronteiras da razão pura
A conexão do conhecido com o completo desconhecido (exemplo do conceito deístico)
Como a razão lida com a conexão entre o que conhecemos e o que não conhecemos e nunca iremos conhecer?
- nessa conexão entre o conhecido e o desconhecido, esse último, permanecerá como tal, entretanto, seus conceitos podem ser determinados
Devemos conceber puros noumenas (um ser imaterial, um mundo inteligível e o mais elevado dos seres), para que a razão possa encontrar preenchimento e satisfação, pois na homogeneidade dos fundamentos que derivam os aparecimentos nunca encontraremos, uma vez que esses noumenas se referem a algo distinto (e portanto, heterogêneo por completo).
Kant aponta a necessidade, portanto, de pensar essa conexão (entre o conhecido e o desconhecido), “por meio de conceitos que expressem a relação desses seres com o mundo inteligível”
- pensar essa relação através de conceitos puros do entendimento, ou por meio das propriedades tomadas de empréstimo do mundo sensível não leva a nenhuma determinação, apenas leva a fenômenos do mundo sensível e a conceitos sem significados
Para isso, Kant toma como exemplo o conceito de ser supremo (deístico), que é um conceito puro da razão e “representa uma coisa que contém toda a realidade, entretanto, demonstrado que sem poder determinar uma única parte dessa (pois para isso seria necessário um exemplo extraído do mundo sensível (que seria um objeto dos sentidos e não algo heterogêneo).
Ao tomar esse conceito deístico, Kant demonstra que a impossibilidade de lhe atribuir um conceito de um entendimento, porque o entendimento humano é fornecido por intermédio dos sentidos
- se separa-se o entendimento da sensibilidade para obter um entendimento puro, nada resta a não ser a mera forma do pensamento
- portanto, seria necessário um outro entendimento que intuísse objetos, o que seria impossível, pois “o entendimento humano é discursivo e só pode ter cognições por meio de conceitos gerais (P139)”
O mesmo acontece ao atribuir uma vontade a esse ser supremo
- o conceito de vontade que possuímos só pode ser extraído da experiência interna, portanto, na sensibilidade. Portanto, existe uma dependência de mim mesmo nessa realização
As objeções de Hume ao deísmo e ao teísmo (antropomorfismo)
![note] Antropomorfismo (por Google) forma de pensamento comum a diversas crenças religiosas que atribui a deuses, a Deus ou a seres sobrenaturais comportamentos e pensamentos característicos do ser humano [A crítica ao antropomorfismo religioso foi um tema frequente na filosofia desde os seus primórdios na Grécia.]. visão de mundo ou doutrina filosófica que, buscando a compreensão da realidade circundante, atribui características e comportamentos típicos da condição humana às formas inanimadas da natureza ou aos seres vivos irracionais.
Kant reflete sobre as objeções de Hume contra o deísmo são e contra o teísmo, apontando que com relação ao primeiro, são fracas e só atingem os argumentos, nunca a própria tese da asserção deísta e quanto ao segundo, são argumentos mais fortes e em alguns casos, irrefutáveis, para Kant
Hume sempre insiste em que, por meio do mero conceito se um ser originário ao qual não atribuímos nenhum predicado exceto os ontológicos (eternidade, onipresença, onipotência), não pensamos realmente nada de determinado, mas seria preciso adicionar propriedade que pudessem levar a um conceito in concreto (P139)
Portanto, para Hume, é necessário dizer como a causalidade de uma causa é constituída (por exemplo, por entendimento e vontade).
Para Kant, os argumentos perigosos de Hume contra o teísmo relacionam-se ao antropomorfismo que ele (Hume) afirma que é inseparável do teísmo e o torna autocontraditório. Se fosse deixado de lado, arrastaria consigo o teísmo, restando apenas o deísmo
- “que não permite realizar nada, de nada nos pode ser útil e não pode servir de fundamento para a religião e a moral” (P140)
Se o antropomorfismo fosse inevitável, as provas da existência de um ser supremo poderiam ser todas serem admitidas
- entretanto, o conceito desse ser jamais poderia ser determinado por nós sem contradição
A fronteira de todo o uso permitido da razão
Os juízos transcendentes da razão pura com a ordem podem coexistir, apenas na fronteira de todo o uso permitido da razão
- não avançando até conceitos que se situam fora do campo de uso imanente (empírico)
Kant afirma que essas idéias (metafísicas) servem apenas para demarcar a fronteira da razão humana
- não estender desmesuradamente a cognição a partir da experiência
- só nos resta conhecer o mundo
- não avançar além da fronteira da experiência
- não pretender julgar as coisas exteriores a ela como em si mesmas
Mantemo-nos, porém, nessa fronteira ao limitarmos nosso juízo apenas à relação que o mundo pode ter com um ser cujo próprio conceito está fora de toda a cognição que somos capaz de atingir no interior do mundo (P140)
- evita-se o antropomorfismo dogmático
- não atribuímos ao ser supremo em si mesmo nenhuma das propriedades pelas quais pensamos os objetos da experiência
- permite-se o antropomorfismo simbólico
- atribuímos a relação desse ser com o mundo
- concerne apenas à nossa linguagem e não ao próprio objeto
o mundo sensível (ou tudo que constitui a base desse conjunto de aparecimentos) se relaciona ao desconhecido, que eu não conheço por esse meio segundo o que é em si mesmo, mas apenas segundo o que é para mim, isto é, em relação ao mundo do qual sou parte
§58
Essa cognição é uma cognição segunda a analogia (“perfeita similaridade de duas relações entre coisas inteiramente dissimilares”), e por meio desta, ainda resta um conceito do ser supremo, determinado com relação ao mundo (e não a nós).
Nota na P141 falando sobre a analogia entre a relação jurídica de ações humanas e a relação mecânica de forças motrizes
Kant afirma que se o antropomorfismo objetivo for subtraído do conceito do ser supremo, os ataques de Hume não serão eficientes.
Se inicialmente for concedido como uma hipótese necessária, o conceito deístico de um ser original (pensado por meio de predicados puramente ontológicos como substância, causa e etc), nada pode impedir que se avance até o teísmo, predicando desse ser uma causalidade mediante a razão em relação ao mundo (e não atribuindo essa razão ao próprio ser, ou seja, evitando o antropomorfismo).
Com isso, se evita que usemos a propriedade da razão para pensar deus, mas apenas para pensar o mundo por seu intermédio, portanto, um ser supremo, quanto ao que é em si, nos é desconhecido, e portanto, desse modo, não fazemos um uso transcendente dos conceitos da razão. Para Kant, ao fazer esse uso transcendente, desviamos a verdadeira destinação de nossas observações, que deve ser:
um estudo da mera natureza por meio da razão e não uma presunçosa derivação de seus aparecimentos a partir de uma razão suprema (P143)
O fraqueza de nossos conceitos se expressa no fato de pensarmos o mundo como se ele derivasse de uma razão suprema quanto a sua existência e determinação interna. Nós conhecemos a constituição desse mundo, sem presumir que queremos determina a de sua causa originária em si mesmo, entretanto, situamos o fundamento dessa constituição (a forma racional do mundo), na relação da causa suprema com o mundo, sem considerar o mundo, por si só, suficiente para isso.
Na P143 uma nota sobre a relação da causalidade da causa originária suprema e a relação da razão humana com às suas obras de arte
Kant afirma que as dificuldades que parecem se opor ao teísmo desaparecem ao se conjugar ao princípio de Hume: “não impelir dogmaticamente o uso da razão para além do campo de toda experiência possível” um outro princípio não percebido por Hume:
não considerar o campo da experiência possível como algo que se fecha em suas próprias fronteiras diante da razão (P144)
Uma critica da razão indica o verdadeiro meio termo entre o dogmatismo que Hume combateu e o ceticismo que ele quis introduzir em seu lugar, um meio-termo que se pode determinar precisamente segundo princípios.
§59
Kant busca explicar “como a razão procede para demarcar as fronteiras do entendimento em relação aos dois campos (P144)” (mundo sensível vs razão).
O que deve estabelecer a fronteira, se encontra fora dela, e portanto, para nós, é um espaço vazio no que se refere a determinação da natureza desses sereis inteligíveis, portanto, se “excluirmos conceitos dogmaticamente determinados” não podemos ultrapassar o campo da experiência possível.
Uma vez que uma fronteira é algo positivo, que pertence tanto ao seu interior quanto ao espaço fora da totalidade dada, a razão compartilha de uma cognição real, positiva, ao seu expandir até a fronteira, desde que não tente passa-la, encontrará um espaço vazio onde pode pensar formas para coisas mas não as próprias coisas
A razão nem se encerra no interior do mundo sensível nem fica a deriva fora dele, “limita-se somente à relação ente aquilo que está fora dela e o que está contido em seu interior”.
Kant demonstra como a teologia natural é um conceito da fronteira da razão humana, e como faz o uso da ideia de ser supremo para “servir-se da relação entre o mundo e uma razão independente (P145)” (Antropomorfismo), inventando um ser e o determinando, apenas por analogia.
Kant elabora uma proposição como resultado de toda a Crítica:
que, com todos os seus princípios a priori, a razão nos ensina apenas sobre objetos da experiência possível e, mesmo destes, apenas o que pode ser conhecido na experiência (P145)
Afirmando que essa limitação não impede que a razão seja conduzida até a fronteira objetiva da experiência, que Kant define como:
a relação com algo que não pode ser ele próprio objeto de experiência, mas que deve, não obstante, ser o supremo fundamento de toda a experiência, sem, contudo, nos ensinar algo sobre esse fundamento em si mesmo, mas apenas em relação ao seu uso (da razão) completo e dirigido aos fins mais elevados no campo da experiência possível (P145)
§60
Kant busca investigar o problema de descobrir o propósito natural ao qual pode estar dirigida a disposição da nossa razão a conceitos transcendentes, apontando que tal investigação é de fato incerta e apenas conjectural e se encontra na antropologia, fora do sistema da metafísica.
Kant acredita que
essa disposição natural tem a finalidade de tornar nossa compreensão suficientemente livre das cadeias da experiência e dos limites da mera contemplação da natureza para que ela veja ao menos se abrir diante de si um campo que contém apenas objetos para o entendimento humano que nenhuma sensibilidade pode alcançar (P146)
Portanto, o objetivo da razão não é nos ocupar especulativamente desses objetos, mas sim, com princípios práticos, que sem esse espaço para suas expectativas e esperanças, “não poderiam expandir-se à universalidade que a razão inevitavelmente requer com respeito a moral (P147)“.
Através de uma análise das ideias psicológicas, cosmológicas e teológica, conclui que:
As ideias transcendentais servem, portanto, se não para nos instruir positivamente, pelo menos para negar as imprudentes afirmações do materialismo, naturalismo e fatalismo (P147)
Ao refletir sobre o benefício prático que pode ter uma ciência especulativa, Kant reflete que essa relação situa-se dentro das fronteiras da filosofia, no qual “o uso especulativo da razão em metafísica deve necessariamente formar uma unidade com seu uso prático na moral (P148)“. Portanto, em uma metafísica considerada como disposição natural, a dialética da razão pura não deve ser explorada apenas como uma ilusão que precisa ser dissolvida, mas também como uma instituição natural.
Kant também fala sobre a solução das questões que aparecem na Crítica (páginas 647 a 668), onde conclui que:
… a completa unidade do uso do entendimento com vistas a uma experiência possível unificada (em um sistema) só poderia lhe ser atribuída em relação à razão, e com isso também a experiência se sujeita indiretamente à legislação da razão (P148)
A solução analítica de Kant para a questão principal “Como é possível a metafísica em geral?”
ascendendo dali onde seu uso, pelo menos nas consequências, está efetivamente dado, até os fundamentos de sua possibilidade
Solução da questão geral dos prolegômenos. Como é possível a metafísica como ciência?
Sobre o Senso Comum em Kant
Em resumo: Kant valoriza o senso comum não como uma fonte de conhecimento metafísico profundo, mas como o entendimento saudável e prático que limita o uso da razão aos objetos da experiência, protegendo-nos do delírio da metafísica dogmática. Nota: Kant diferenciava o senso comum (common sense) da “razão reflexiva” (filosofia), mas defendia que a filosofia, para ser válida, deve estar em acordo com o entendimento saudável e não o contradizer.
Kant irá apontar as necessidades para que a metafísica deixe de ser uma persuasão enganosa (dialética) e se torne uma ciência, tomando como base o sistema completo apresentado na Crítica, que contém “todos os meios de execução pelos quais a metafísica pode ser estabelecida como ciência”.
Como entretanto pode ser posto em prática esse plano?
Kant afirma que a crítica esta para a metafísica escolástica, assim como a química para a alquimia ou a astronomia para a astrologia divinatória. Portanto, para aqueles que compreenderam a crítica, a metafísica “não mais necessita de descobertas preparatórias e pode, pela primeira vez, satisfazer a razão de maneira duradoura”.
Kant acredita que a metafísica tenha uma vantagem sobre as demais ciências, poisL
pode ser completada e levada a um estado permanente em que não pode mais ser modificada nem é capaz de nenhuma aplicação por meio de novas descobertas (P152)
Portanto, a razão, na metafísica, tendo as suas fontes de cognição em si própria, uma vez que apresentou as leis fundamentais dessa cognição de maneira plena e determinada
nada mais resta que a razão pura possa conhecer a priori, nem sequer indagar com algum fundamento (P152)
A estagnação e a decadência da metafísica
Embora Kant reconheça que a metafísica tenha chegado a uma decadência, a um colapso, e que esse momento em que “novas transições de uma inclinação para que lhe é oposta passam pelo estágio da indiferença” é o mais perigoso para o autor, é o melhor para a ciência:
quando o espírito sectário se extinguiu por uma completa ruptura das antigas ligações, as mentes se encontram na melhor condição para gradualmente começar a dar ouvidos a propostas de uma aliança segundo um novo plano (P153).
Kant afirma que as suas expectativas com os Prolegômenos são
- avivar a investigação no campo da crítica
- prover o espírito universal de filosofia de um novo e muito promissor objeto de sustento
E para justificar as suas esperanças (em suas palavras de acordo com a “lei da necessidade”), Kant afirma que sempre haverá metafísica no mundo pois a mente humana é incapaz de abandonar as investigações metafísicas, entretanto, a mesma até o momento não conseguiu “satisfazer nenhum espírito inquisitivo”, portanto uma crítica da própria razão pura deve ser tentada, ou examinada e submetida a uma prova geral caso já se exista uma pois:
não há outro meio de aliviar essa necessidade premente, que não é apenas uma mera sede de conhecimento
Kant analisa os conteúdos metafísicos já existentes se perguntando se algum destes autores “afinal já fez a metafísica avançar um único passo”. Aponta as limitações dos eruditos justificando-as justamente pela ausência de uma ciência, que possui seus germes na crítica, entretanto:
embora o entendimento se beneficie em muito do tratamento analítico de nossos conceitos, a ciência (da metafísica) não avança com isso nem um passo, porque essas análises dos conceitos são apenas materiais com os quais a ciência ainda deve ser construída. (P154)
Ou seja:
a metafísica como ciência até agora absolutamente não existiu (P155)
A inexistência da metafísica como ciência e as suas exigências para que seja
Kant afirma que a metafísica até o momento não foi capaz de provar como válidas nenhuma proposição sintética a priori (portanto, permanece-se estagnada desde o tempo de Aristóteles) e justifica que todo aquele que a fizer, deverá fazer sem recorrer ao artifício da probabilidade e ao chamado bom senso.
Kant relaciona o bom senso ao entendimento ordinário e como oposto ao entendimento especulativo (no que a metafísica diz a respeito).
- ordinário: faculdade do conhecimento e do uso de regras in concreto
- sempre exigirá um exemplo tomado da experiência
- especulativo: faculdade do conhecimento e do uso de regras in abstracto
- conhece a priori e independentemente da experiência
Kant crítica a postura dos “falsos amigos do senso comum”, que afirmam haver “proposições que são imediatamente certas” e sem necessidade de nenhuma prova, pois do contrário “jamais chegaríamos ao fim dos fundamentos do nosso juízo”, mas que, entretanto, não conseguem apresentar alguma prova dessa licença (a não ser o princípio da contradição, inadequado para estabelecer a verdade de juízos sintéticos), exceto proposições matemáticas (cujo juízo é completamente distinto da metafísica).
Kant afirma que apelar para o senso comum na metafísica, enquanto uma “ciência especulativa da razão pura”, significa abandoná-la e “renunciar toda a cognição especulativa pura”, além do que, podemos faze-lo quando “uma crença racional é tudo que se estima como possível para nós, e também como suficiente para as nossas necessidades”.
Kant considera essa elaboração uma exigência “para a possibilidade de uma metafísica como ciência”.
Apêndice. Do que pode ser feito para tornar real a metafísica como ciência
Kant busca a partir de uma crítica feita sobre sua obra Crítica da Razão Pura esclarecer alguns maus entendidos a respeito da obra. Cabe ressaltar que Kant valoriza a crítica, desde que feita corretamente.
Amostra de um juízo sobre a Crítica que precede a investigação
Kant argumenta sobre a classificação de seu sistema como um “sistema de idealismo transcendental”, comparando-o com os demais idealismos já existentes (Berkeley, Descartes)
Na P161, uma nota sobre o significado e o uso correto da palavra transcendental em sua obra
Para os “genuínos idealismos”:
Toda cognição através dos sentidos e da experiência nada mais é que simples ilusão, e só há verdade nas ideias do puro entendimento e razão (P163)
Enquanto o princípio que “determina e governa” o seu idealismo é, ao contrário:
Toda cognição de coisas a partir do simples entendimento puro ou da pura razão nada mais é que simples ilusão, e só há verdade na experiência (P163)
Kant demonstra como a sua obra se distingue dos demais idealismos (principalmente o de Berkeley) a partir dos conceitos de espaço e tempo. Além de Berkeley não ter dado atenção ao tempo, considera o espaço como uma “representação empírica”, enquanto Kant demonstra que o espaço pode ser conhecido a priori (forma pura de nossa sensibilidade).
Ainda distinguindo-se dos demais idealismos, denomina seu idealismo como “idealismo crítico”, pois subverte o idealismo ordinário, atribuindo uma realidade objetiva a toda cognição a priori por meio da idealidade do espaço e tempo. Sendo assim, distinguindo-se do “idealismo dogmático de Berkeley e do idealismo cético de Descartes”.
Kant crítica a interpretação de sua obra como uma mera inovação verbal, e não como metafísico herético (que professa doutrina contrária ao que foi estabelecido), e ainda, reafirma que se o autor esta “em posse de conhecimentos importantes e elevados”, deveria compartilha-los com o mundo, pois:
O mundo está cansado de asserções metafísicas, o que se requer é uma investigação sobre a possibilidade dessa ciência, as fontes das quais sua certeza pode ser derivada e a posse de critérios seguros para distinguir entre a ilusão dialética da razão pura e a verdade (P165)
Kant aponta que o objetivo da crítica e a centralidade da sua obra estão na
possibilidade da cognição sintética a priori, que era propriamente o problema de cuja solução depende inteiramente o destino da metafísica, e para o qual minha Crítica (assim como estes meus Prolegômenos) estava toda dirigida (P165)
É necessário encontrar um padrão para metafísica assim como as demais áreas do conhecimento e outras ciências (tal como história, matemática, teologia e etc) já possuem.
Kant afirma que se for provado, alguma proposição verdadeiramente metafísica (sintética e conhecida a priori a partir de conceitos), aceitará a censura de sua Crítica, do contrário, deve-se admitir que:
a metafísica não é absolutamente nada sem a certeza apodítica de tais proposições, sua possibilidade ou impossibilidade deveria, antes de tudo, ser estabelecida em uma crítica da razão pura (P166)
Ainda, para “facilitar”, Kant propõe que as suas antinomias sejam utilizadas, e que a sua prova da tese oposta seja atacada, desse modo, se a partir delas não for possível extrair uma proposição que não seja mostrada como verdadeiramente contrária, então se estabelece que exista um defeito crônico na metafísica.
Proposta para uma investigação da Crítica à qual o juízo pode seguir-se
Kant manifesta o desejo de que a sua obra possa dar “nova vida e fertilidade” para a metafísica e faz o apelo para a continuação da sua obra, frente a “época reflexiva” em que se encontrava, espera o trabalho em direção “ao interesse comum de uma razão cada vez mais esclarecidas”.
Kant almeja por um sistema (e ainda que não o seu) que possa se tornar um legado para a posteridade. Aponta que a metafísica ordinária (ainda que de maneira superficial) foi um cultivo da razão, mas que produziu um único bem, que foi
ir ao encalço dos conceitos elementares do entendimento puro para esclarecê-los por meio análise e determiná-los por meio da explicação (P170)
Mediante a Crítica se oferece ao juízo “um padrão pelo qual o conhecimento pode ser distinguido com certeza do pseudoconhecimento” e ainda, com relação a teologia “torná-la independente do juízo da especulação dogmática”.
Kant resume a sua proposta:
enfim uma ciência, e que, por meio dela, um benefício genuíno é proporcionado à coisa pública
Uso do NotebookLM na validação dos resumos e fichamentos
Para acompanhar esse estudo, eu estou utilizando o NotebookLM com o objetivo de validar os meus entendimentos a cerca da obra, por isso, estou utilizando o seguinte prompt para validar esse resumo: “Produzi o documento “Anotações sobre “Prolegômenos” de Kant”, que ainda esta em andamento, poderia revisar e ver se por hora existe alguma correção a ser feita?”